Onde está São Paulo em cada mensagem do Cursilho?

MCC: São Paulo Apóstolo e a missão da evangelização



Contextualização – Encontros com Cristo
Saulo, nascido em Tarso, na Cilícia, foi um jovem fariseu cumpridor e súdito do Império Romano. Desde cedo ensinado com base nas convicções religiosas de seus pais, Saulo mais tarde tornou-se discípulo de Gamaliel — um fariseu e doutor da Lei —. Ao lado do professor, Saulo cresceu estudando as escrituras por meio dos livros sagrados e desenvolvia ao longo dos estudos um exaltado fanatismo religioso, como ele mesmo confessaria em sua epístola aos Gálatas: “Avantajava-me no judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1, 14).
Com o tempo, Saulo se tornou um homem a procura da verdade e do pleno conhecimento dela, até que suas convicções, chocadas ante o Cristianismo que surgia, haviam-se convertido em ódio profundo contra este. No contexto do MCC, Saulo vivia na perspectiva daqueles que ainda não conhecem verdadeiramente a Deus. A busca pela “verdade” o cegava, e à medida que Saulo a procurava, perdia a si mesmo, não conseguia lançar um olhar sobre si e sobre o mundo.
Saulo se manteve distante de Jerusalém no período da vida pública de Jesus. Quando retornou, após a tragédia da Paixão, pesava sobre a consciência do povo e, sobretudo, das autoridades, a crucificação de Jesus. Os discípulos pregavam a doutrina cristã no próprio Templo, e proclamavam que Jesus ressuscitara dos mortos (cf. At 3, 11ss.). Estes fatos perturbaram Saulo, que não compreendia a impunidade daqueles que, segundo ele, se afirmavam contra a religião de seus antepassados, arrastando atrás de si tamanha multidão de seguidores.
Sua irritação chegou ao auge quando, estando na sinagoga chamada, onde semanalmente se reuniam os judeus, deparou-se com um jovem chamado Estêvão, que anunciava Jesus como o Messias. Indignado, Saulo, cuja a família tinha influência romana, aprovou a morte de Estevão (cf. At 8, 1) e considerou como uma honra a missão de custodiar perseguições contra os cristãos.

Os encontros com Cristo

Acreditando “que devia fazer a maior oposição ao nome de Jesus de Nazaré” (At 26, 9), Saulo perseguiu os cristãos de Jerusalém, e não contente em devastar apenas a Igreja de Jerusalém, foi apresentar-se ao príncipe dos sacerdotes, pedindo-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de prender, nessa cidade, todos os que se proclamassem seguidores da nova doutrina (cf. At 9, 2).
Foi então que Jesus, a quem Saulo perseguia (At 9, 5), atravessou seu caminho. Tomando o caminho de Damasco, cego pelo ódio e pela perda do sentido de sua vida, Saulo foi tomado por uma luz vinda do Céu, que o envolveu e o derrubou de seu cavalo. Ali, caído por terra e cego pelo resplendor dos raios divinos, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”.

Um pai rico em misericórdia

Saulo — assim como o filho pródigo, que em busca do “conhecimento”, saiu ao mundo e experimentou todos os tipos de situações, até cair em si e retornar ao pai —, encontrava-se caído, cego pela luz dos céus, tendo que vencer seu orgulho e declarar-se vencido ao poder de Cristo. Reconhecendo Deus, por meio do fenômeno que o acometeu, Saulo questionou: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9, 6).
De perseguidor que era, tornou-se servo fiel – assim como o filho pródigo, que retorna ao Pai — pronto para obedecer aos mandatos do Divino Perseguido, o Pai rico em misericórdia. Por um simples toque de Graça, se transformara em Apóstolo, fervente discípulo daquele que havia perseguido.

O Sentido da Vida

Ajudado por seus companheiros, Saulo ergueu-se do chão. Entretanto, mais do que levantar-se do solo, surgiu em sua alma “o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 24). Saulo, após ser “liberto” da cegueira, teve certeza que havia encontrado o Sentido da Vida.
O blasfemador prostrou-se num amoroso reconhecimento de sua derrota: “Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro. Se encontrei misericórdia, foi para que em mim primeiro Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade e eu servisse de exemplo para todos os que, a seguir, nEle crerem, para a vida eterna” (I Tm 1, 15-16).

Graça: A Vida na Vida

Com a mesma radicalidade com que outrora se apegara ao judaísmo, Saulo abraçava agora a Igreja de Cristo. A graça de sua natureza (corpo-mente-espírito) conservava as características próprias de sua personalidade que, viriam mais tarde, a contribuir na formação da escola paulina de vida espiritual.
Saulo passou a enxergar a vida e sua missão terrena com outros olhos. A graça o acometeu e o fez reconhecê-la em sua vida após um verdadeiro encontro pessoal com Deus. Saulo reconheceu o divino em si, e sentiu-se despertado para contribuir na propagação desta graça.

Jesus Cristo

Saulo, o convertido Paulo, só passou a se mover por um único ideal, que tomava todas as fímbrias de sua alma e dava verdadeiro sentido à sua existência. “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6, 14).
Doravante essa Cruz – na qual Paulo não apenas considerava os sofrimentos do Salvador, mas via, sobretudo, os esplendores da Ressurreição – seria para ele o rumo de sua vida, a luz dos seus passos, a fortaleza de sua virtude, o seu único motivo de glória. Esse amor, que o transformou, o encorajava agora a falar, a pregar, a percorrer os confins do mundo a fim de conquistar almas para Cristo, arrancando-lhe, do fundo do coração, este gemido: “Ai de mim se eu não evangelizar!” (I Cor 9, 16).

Comunidade Igreja – Uma Igreja em saída

Por esse amor, Paulo mostrou-se disposto a enfrentar tribulações, a suportar os piores tormentos, fossem de ordem natural, como também os de ordem moral: “Muitas vezes vi a morte de perto. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites, menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte de meus concidadãos, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos! Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, a minha preocupação cotidiana, a solicitude por todas as igrejas!” (II Cor 11, 23-28).
Paulo iniciou sua missão de glorificação a Jesus Cristo e de propagação de Sua Igreja. Assim, pouco a pouco, por meio de suas viagens apostólicas e das numerosas cartas através das quais sustentava na Fé seus filhos espirituais, Paulo ia assentando os fundamentos da Esposa Mística de Cristo.

A Semeadura e a Vinha do Senhor

Paulo mostrou-se ao decorrer dos anos como um semeador da vinha do senhor, jogava as sementes do evangelho pelas cidades onde passou, enfrentou oposições dentro de seu próprio povo, mas semeou o que lhe havia caído em terra boa: a boa nova de Jesus. Em seu percurso missionário encontrou corações espinhosos, rochosos, mas também corações que assim como o dele, deixaram a semente de Cristo germinar.
Muitos se deixaram contagiar pela vida e missão de Paulo, e tornaram-se discípulos de seus ensinamentos. Lucas, um deles, foi quem narrou os episódios da vida de Paulo, e tornou-se semeador por meio de testemunhos da vida do apóstolo.
São Paulo apesar de “tardiamente” encontrar-se com Cristo, “foi convidado a participar da Vinha do Senhor” e dedicou-se, mesmo tendo chego “após” os outros discípulos, com o mesmo ardor e comprometimento com a evangelização. Conquistou o título de apóstolo, mesmo não tendo integrado o primeiro grupo escolhido por Jesus, e trabalhou para receber a mesma recompensa que todos os outros, o reino dos céus.

O Cristão Comprometido

Paulo depois de ter um encontro pessoal com Cristo e questiona-lo: “O que devo fazer?”, se coloca a serviço do reino, no anúncio do Evangelho. Mesmo sendo por diversas vezes aprisionado durante suas viagens missionárias, o apóstolo não perdia a oportunidade de espalhar a boa nova. Assim, não raras vezes tornava-se ele alvo do desprezo ou objeto de vergonha para os convertidos. Ele pouco se importava com as ofensas feitas à sua pessoa, tendo sempre em mente seu ardor missionário.
O apóstolo se mantinha em constante oração, formação e ação para manter-se firme quando posto a prova, mediante perguntas capciosas (cf. Lc 20, 27-39). Nem tudo, porém, eram combates para o incansável Paulo. Se face ao erro e à falta de fé, ele mostrava todo o seu ardor combativo e sua intransigência, em relação aos bons, deixava entrever um fundo de alma extremamente afetuoso e compassivo, ordenado segundo a caridade de Cristo.
Até sua morte, Paulo manteve-se comprometido, tendo sido decapitado– ao contrário de Pedro, que sofreu a pena da crucifixão – por pregar o evangelho e a Igreja de Cristo. Sua cabeça, ao cair no solo sob o golpe fatal da espada, saltou três vezes, fazendo brotar em cada um dos pontos uma fonte de água borbulhante. Este fato, se não comprovado pela História, baseia-se numa piedosa tradição confirmada pelo nome de Tre Fontane, que ostenta o mosteiro trapista construído naquele local.

Ver, julgar e agir

Em sua trajetória de conversão, o Apóstolo São Paulo precisou rever sua vida, encontrar-se com Cristo durante sua viagem a Damasco, discernir o chamado à missão e colocar-se a serviço e mais que isso, agir como missionário, como propagador do evangelho.
Paulo é inspiração de missão, da proposta do Papa Francisco para uma Igreja em saída, estando à frente de seu tempo, como um exemplo atemporal de liderança cristã. O Movimento de Cursilhos de Cristandade, sua história e sua base estrutural muito se assemelha a seu patrono, o Apóstolo São Paulo.
O início do MCC partiu do incômodo de jovens que se mostraram inconformados com o rumo que os religiosos tomavam, o ceticismo e a falta de credo dos espanhóis os fizeram despertar para a necessidade da missão. O Apóstolo São Paulo, após o encontro com Cristo, também se sentiu incomodado e convidado a missão da evangelização.
A forte liderança e decisão de deixar-se encontrar, conhecer e compreender ideias primárias cristológicas também foram traços presentes nos jovens de Santiago de Compostela, e que eram comuns ao Apóstolo São Paulo. Compreender a vida, decisões e ações deste santo é compreender o Cursilho por dentro, suas diretrizes e motivações.

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