1. Versão em Português

CARTA MCC BRASIL – JUN 2020 – 250ª

“Quem semeia entre lágrimas
colherá com alegria.
Quando vai, vai chorando,
Levando a semente para plantar;
mas quando volta, volta alegre,
trazendo seus feixes” (Sl 126, 5-6).

Caríssimos irmãos, caríssimas irmãs, leitores e leitoras fiéis de nossas Cartas Mensais. Com vocês estejam a paz que o Ressuscitado nos oferece reiteradamente no Tempo Pascal e a alegria que deve habitar os corações capazes de entender e de viver o Pentecostes por meio do qual Jesus cumpriu a promessa definitiva de permanecer entre os seus.

Introdução

Há vinte e um anos e dez meses, quando ainda exercia as funções de Assessor Eclesiástico Nacional do MCC, iniciei a redação destas Cartas para os participantes do MCC do Brasil. Posteriormente, a pedido dos sacerdotes que me sucederam como Assessores Eclesiásticos, continuei a tarefa assumida que, com o decorrer do tempo, passou a suscitar o interesse de outros leitores. Há bastante tempo, é traduzida também para o espanhol e tem sido enviada para o MCC de inúmeros países de fala hispânica.

Ao chegar, hoje, a esse número – 250 – que não deixa de ser bastante significativo, pensei em qual seria o tema mais oportuno sobre o qual basear nossa reflexão. Sempre, é claro, iluminado pela Palavra de Deus, concluí que o assunto não poderia ser outro senão o gravíssimo momento ora vivenciado por toda a humanidade: a pandemia da Covid-19 causada pelo novo coronavírus.

Não ignoro o fato de que inúmeras são já as reflexões, sugestões e possíveis soluções propostas para os vários aspectos da crise global gerada pela pandemia, que também eu tenho acompanhado com vivo interesse. Não pretendo enriquecer tal ou qual aspecto dessas incontáveis manifestações; talvez nada de novo tenha eu a acrescentar a elas. O que me proponho é tentar lançar alguma luz sobre este momento, a partir da Palavra de Deus contida nos dois últimos versículos do Salmo acima citado.

Afinal, para quem vive da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, sejam quais forem as circunstâncias, essa luz nunca falta e chama-se ESPERANÇA.

“Quem semeia entre lágrimas…”. O Concílio Vaticano II nos ensinou a viver o projeto de Deus para o mundo e para suas criaturas através da leitura dos “sinais dos tempos”. Talvez, mais do que outras situações, esta que estamos vivendo seja o momento privilegiado no qual Deus nos manifesta sua presença amorosa. Sim, momento de tanta dor, de tanto sofrimento, de separações até nos instantes decisivos da morte de entes queridos, de tantas lágrimas ou, como se sabe, de muitos suicídios infelizmente entre os jovens; momento enfim no qual o Pai nos faz perceber que tudo deve ser tratado como uma semeadura. É hora de semear a solidariedade, a bondade, o desprendimento, o amor fraterno.

Apesar da imposição de um distanciamento sem precedentes na história, a humanidade está experimentando, através da criatividade no uso dos meios de comunicação à disposição, uma nova forma de relacionamento. Isso deve-nos mostrar que estamos sendo chamados a semear os valores que não passam, ainda que “entre lágrimas”, para podermos voltar na pós-pandemia a um mundo renovado pelo germinar e crescer desses valores.

Estamos vivendo o momento da semeadura, portanto, como um agricultor pouco experiente que, não conhecendo de antemão os diversos tipos de terreno, a nenhum deles exclui da sua tarefa de semear.Por isso, alimentando em seu coração a esperança, o semeador deixa cair uma parte da semente “à beira do caminho” (os desanimados ou afastados do caminho de Jesus), “em solo pedregoso” (os acomodados), no “meio dos espinhos” (os pessimistas), e também “em terra boa” (os esperançosos). O semeador é irrepreensível e a semente é de primeiríssima qualidade. Nem toda semente germinará por causa do terreno, mas sempre haverá fecundidade e a colheita mostrará resultados de “cem, sessenta e trinta por um”… (cf. Mt 13, 1-8). É essa a ESPERANÇA do semeador.

“… colherá com alegria”. Qual seria, para os seguidores do caminho de Jesus, a “nova normalidade” que surgirá depois da pandemia e de que tanto se está falando hoje? Sabe-se que, dependendo da mentalidade de cada pessoa, essa “normalidade” terá uma fisionomia diferente. Para uns será a realização de seus sonhos: um mundo de pura felicidade, de conquistas financeiras, de satisfações nunca antes experimentadas. Entretanto, à luz da Palavra de Deus expressa no Salmo, a “nova normalidade” deverá ser a revelação e a prática cotidiana de uma humanidade menos egoísta, menos individualista, mais solidária, mais respeitadora do meio ambiente, mais sensível à dor e ao sofrimento do próximo, disposta a “perdoar mais do que ser perdoada”, inclinada a aprender a “amar mais do que ser amada”.

Por que não seria possível sonhar com uma “normalidade” que consolidasse alguns gestos – tão simples e até comoventes – surgidos entre “as lágrimas da semeadura” deste trágico momento que vivemos? Gestos como aqueles do seu vizinho que, mesmo professando outra crença, ou da sua vizinha que raramente o cumprimentava, os quais, ao sair durante esta quarentena, para seus afazeres diários, lhe perguntavam: “Precisa de alguma coisa? Estou saindo e posso trazer para você”! Não será a nova “normalidade” o momento de “colher com alegria” os frutos de tal semeadura?

“… volta alegre, trazendo seus feixes”. A humanidade pós-pandemia seria, assim, a realização plena do semeador que trabalhou alicerçado na esperança. Afinal, sejam quais forem os vírus, as vicissitudes, as provações, as contrariedades e as limitações, se o ramo está unido à videira, o Pai o poda para que dê ainda mais fruto. Por isso, os semeadores voltarão cantando de alegria, arqueados sob o peso dos feixes de uma admirável colheita.

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo: Estaremos dispostos a abraçar o sentido profundo da esperança que o Senhor nos revela nestes tempos difíceis? Estaremos abertos à sua inspiração de semear entre lágrimas o amor que afirmamos ter pelo próximo? Estaremos a postos para iniciar, no tempo oportuno, a colheita que deveremos continuar a partilhar como se, de fato, fôssemos capazes de “ter tudo em comum”? Estaremos engajados nos planos d’Aquele que “faz novas todas as coisas”?

Se respondermos afirmativamente a essas perguntas, seremos, sem dúvida, os artífices de um novo mundo, de uma nova era, a prova viva de que somos capazes de dar continuidade ao Reino que Ele começou a construir entre nós. Seremos, sim, os comunicadores da autêntica ESPERANÇA firmada na Palavra de Jesus no momento em que se despediu de seus amigos e fiéis seguidores: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Esperando que seja fecundo o terreno dos nossos corações para a colheita da nova humanidade, despeçome com meu abraço fraterno.

P. José G. BERALDO

Equipo Sacerdotal GEN MCC Brasil

E-mail: jberaldo79@gmail.com

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