1. Versão em Português

Carta MCC Brasil – Maio 2020 – 249ª.

“Eu lhes darei um só coração e infundirei neles um espírito novo. Extrairei do seu
corpo o coração de pedra e lhes darei um coração de carne, de modo que andem
seguindo minhas leis, observem e pratiquem meus preceitos. Assim serão o meu povo e
eu serei o seu Deus” (Ez 11, 19-20).


“Vi, então, um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra
passaram, e o mar já não existe….Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte
não existirá mais e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas
anteriores passaram. Aquele que está sentado no trono disse „Eis que faço novas todas
as coisas’.” (Ap 21, 1;4-5). 

Caríssimos irmãos e irmãs, leitores e leitoras dessas Cartas Mensais, em tempos de “quarentena”, que a Paz de Cristo Ressuscitado esteja nos corações e nas vidas de todos vocês!

Estamos vivendo tempos difíceis… e diferentes. Nossa “normalidade” foi varrida como um furacão e acumularam-se, em nossa mente, uma enxurrada de perguntas para as quais não encontramos respostas – pelo
menos não nos canais diários que nos trazem toda sorte de informações.

Uma dessas perguntas diz respeito, precisamente, à possibilidade de que aquela “normalidade” seja ou não recuperada. “O mundo será diferente depois disto”. É sobre esta repetida afirmação nos tempos atuais, inclusive pelo Papa Francisco, que antropólogos, sociólogos, filósofos e outros estão levantando questionamentos e previsões. Todas as nossas atuais realidades, muitas delas positivas, outras bastante negativas, são encaradas como uma “crise global”. Caso haja interesse, cada um faça suas próprias pesquisas e busque suas próprias interpretações. Agora, em três momentos, proponho, ainda que em forma de perguntas mesmo para facilitar sua interiorização, uma breve reflexão sobre o momento presente e futuro à luz da Palavra de Deus no Antigo como no Novo Testamento. Pois “Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho” (Sl 119, 105).

1. No que e como o mundo e o seu “mundinho” pessoal serão diferentes? Nos momentos nem sempre muito tranquilos da nossa quarentena, recebendo uma avalanche de noticias, pudemos, quem sabe, projetar nosso futuro pessoal a partir de duas atitudes diametralmente opostas:

a) Você será mais solidário, mais sensível, mais próximo, mais generoso, mais caritativo como nos pede Jesus – “… Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39b) – e como resposta ao que está-se revelando, neste tempo: a “solidariedade universal”. Pergunta: como há ou houve uma “pandemia” haverá, em contrapartida, uma “pansolidariedade”? Exemplos admiráveis não faltaram sobre os quais podemos pautar nossas futuras atitudes. Atitudes como as dos que já viveram o que é “ter um coração de carne”! Sem falar do heroísmo de alguns que ousaram chegar ao extremo, como o exemplo, até emocionante, do sacerdote italiano idoso, Giuseppe Berardelli, de Bérgamo (Itália), infectado pelo coronavírus que, entubado, no leito de uma UTI, ofegante, tira o aparelho que o ajudava a respirar, e pede para que o ponham no rosto de uma pessoa mais jovem que, a seu lado, ofegante também, já estava quase sufocado pelo vírus…e fechou os olhos para o abraço acolhedor do Pai misericordioso!

b) Você poderá ser como aquele que, já acomodado no seu isolamento obrigatório, insensível e bem instalado no seu bem-estar, mergulhou ainda mais profundamente no seu egoísmo e individualismo – “ainda bem que não é comigo” – e endureceu ainda mais o seu “coração de pedra” tornando-o sempre mais injusto, menos caridoso, ou mais carregado de ódio. Pergunta: não seremos tocados pelo que Deus diz ao profeta Ezequiel: “Extrairei do seu corpo o coração de pedra e lhes darei um coração de carne”, o que faria do Criador o primeiro “cardiologista” a fazer um “transplante” para dar vida nova à sua criatura?

2. Nossa Igreja, Povo de Deus, como poderá ser “depois disto”? Torna-se inevitável essa pergunta à que tentam responder teólogos e pastoralistas. Quase todos, senão todos, concordam em que nossa Santa Igreja voltará à simplicidade e autenticidade das primeiras comunidades cristãs, portanto deverá procurar voltar ao essencial. Imagem de uma nova Igreja? Quem não se recorda, até emocionado, daquela visão de um ancião,  meio trôpego, despojado, simplesmente vestido de branco, atravessando, sozinho, a imensa Praça de São Pedro, em Roma, numa tarde chuvosa, para dar sua bênção à Cidade e ao Mundo? Será essa a imagem de uma nova Igreja, despojada de eminências e excelências, de capas magnas, de casulas e estolas douradas e caríssimas, de vestes esquisitas e fora de época? E também de mitras e báculos que insinuam muito mais dominação e distanciamento, impondo uma Igreja de doutrina e não de acolhimento, aproximação e misericórdia?

E nossas celebrações litúrgicas – muitas vezes apresentadas numa linguagem quase incompreensível – contarão ainda com a presença física dos católicos que se acostumaram, durante o tempo de quarentena a “assistir” em casa às celebrações pela tela da TV ou por outros meios de comunicação social? Providencial iniciativa para uma situação excepcional, reconheça-se! Mas não será para muitos fiéis mais cômodo permanecer em casa usufruindo, ainda, dos benefícios pastorais da quarentena? Ou ainda terão paciência para suportar demoradas e enfadonhas homilias declamadas mais para anjos do que para homens e mulheres pé no chão, que vieram à igreja, em muitos casos, somente para cumprir a obrigação de “assistir à missa aos domingos e festas de guarda”, só para não cair em “pecado mortal”?

Finalmente, “depois disto”, depois que um vírus quase insignificante no tamanho, mas mortífero em poder igualou, sem distinção, homens e mulheres, ricos e pobres ,jovens e anciãos, uma nova Igreja restituirá a mesma dignidade, os mesmos direitos de que gozam os homens também às mulheres? Lembro que, há poucos dias, o papa Francisco relançou a Comissão para debater o diaconato feminino! O que pensar sobre isso? “Vi, então, um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe…”

3. Movimentos, comunidades, associações eclesiais, como serão “depois disto”? Cada uma dessas organizações eclesiais existem e se identificam pelo seu carisma, por seus objetivos. Umas são mais antigas; outras de inspiração mais recente. Diante de uma revisão honesta e criteriosa, que iniciativas deverá cada uma delas tomar, que compromissos irão assumir agora na nova Igreja “em saída”? O papa Francisco usa com frequência um termo que pode ajudar a traçar um projeto e pô-lo em prática. Esse termo ele o traduz por “criatividade”!

3.1. MCC: agora desejo dirigir uma breve consideração de maneira especial ao Movimento de Cursilhos de Cristandade, cuja Direção Nacional delegou-me a missão de redigir estas Cartas mensais – o que venho fazendo desde setembro de 1999. Convido-os a repensar o termo “cristandade” empregado na sua identificação. Como todos sabem, ou deveriam saber, “cristandade” é um termo que tem sua origem na época pré-medieval, denotando poder e dominação e, conforme a mentalidade daquela época, conluio com o poder de reis e imperadores. Apenas participantes do MCC (“ad intra”) aceitam ainda essa caracterização, enquanto bispos, padres, leigos e leigas (“ad extra”) veem-na como retrógrada, anacrônica e defasada. Ouçamos o que nos diz o próprio Papa Francisco: “Já não estamos na cristandade” (Discurso à Cúria Romana, 21/12/2019) . E, em outro momento, estimula os movimentos eclesiais e, portanto, também o MCC com palavras encorajadoras e ousadas: “A humanidade chama, interpela e provoca, isto é, chama a sair para fora e não temer a mudança” (Discurso aos Movimentos de Igreja). Chama-se a isso CRIATIVIDADE!

Finalmente, caríssimos leitores e leitoras do MCC, com meu pedido de desculpas por ter-me alongado mais do que de costume, deixo-lhes com uma, quem sabe, incômoda indagação final: não seria este um providencial momento para que o Movimento de Cursilhos de Cristandade presente pelo mundo e através do seu Organismo Mundial (OMCC) dê a este “novo modo de ser Igreja” um precioso e corajoso testemunho de comunhão e participação? Testemunho esse concretizado na renúncia à sua identificação tradicional, deixando que se substitua o seu “coração de pedra” – CRISTANDADE – por aquele “coração de carne” anunciado pelo profeta Ezequiel e profundamente enraizado na sua original, mas sempre atual e inspirada definição* , e preservando fielmente seu carisma? De agora em diante, por que não ser identificado como um MOVIMENTO DE VIDA CRISTÃ E EVANGELIZAÇÃO? Ou por alguma outra expressão encontrada sob a iluminação do Espírito Santo? Não indicaria esse gesto que o Movimento está aberto para voltar ao essencial? Pois “Vi, então, um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe…. porque as coisas anteriores passaram. Aquele que está sentado no trono disse ‟Eis que faço novas todas as coisas.‟
Com meu abraço ainda mais carinhoso e fraterno, despeço-me

*IFMCC, Terceira Edição, Introdução: “Os Cursilhos são um movimento de Igreja que, mediante um método próprio, torna ossível a vivência e a convivência do fundamental cristão, ajuda cada pessoa a descobrir e responder à própria vocação pessoal, e promove a criação de grupos de cristãos que fermentem de evangelho os ambientes”.
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P. José G. BERALDO

Equipo Sacerdotal GEN MCC Brasil

E-mail: jberaldo79@gmail.com

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