Versão em Português

““Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do rio Jordão e, no Espírito, era conduzido
pelo deserto. Ali foi posto à prova pelo diabo, durante quarenta dias. Naqueles
dias, ele não comeu nada e, no final, teve fome. O diabo, então, disse-lhe: ‘Se és o
Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão’ Jesus respondeu:
‘Está escrito: ‘Não se vive somente de pão’” (Lc 4, 1-4)
.

Caríssimos amigos e amigas, irmãos e irmãs, peregrinos na transitoriedade deste mundo rumo à Pátria definitiva: estejam com todos a força e a iluminação do Espírito Santo!

Introdução. Na Quarta-feira de Cinzas iniciamos o tempo quaresmal que nos convida a percorrer um itinerário alimentado pelo tripé jejum- esmola-oração. Trata-se de uma peregrinação no deserto rumo à terra prometida. Terra prometida que é a celebração da Páscoa da Ressurreição de Jesus, promessa de nossa própria ressurreição para a Vida.

É também nesse tempo quaresmal que acontece a Campanha da Fraternidade que já se tornou tradição na Igreja Católica no Brasil. Neste ano de 2020 a CF tem por lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34), e por tema: “Fraternidade e vida: dever e compromisso”. Dela não vamos tratar aqui, uma vez que se pode acompanhar todo o seu desenvolvimento através da participação ativa nas dioceses, paróquias, movimentos eclesiais e outras comunidades.

1. A travessia de um deserto durante quarenta dias e quarenta noites. Vivemos num mundo agitado, cheio de surpresas de todo tipo, voltado para o imediatismo e para a superficialidade, profundamente mergulhado na produção de bens e negócios. Como seria possível, perguntamo-nos, entender o deserto num mundo como esse? De fato, esse mundo leva as pessoas a um vazio interior, a uma ausência do transcendente, a uma falta de espiritualidade que acabam por transformar o coração humano num deserto onde se aninham a solidão, a desilusão, a frustração e, pior, até o desespero. Sem falar do chamado mal do século que é a depressão. Ou da fuga da realidade que leva à dependência de um celular que conecta homens e mulheres a um mundo virtual, portanto irreal, constituído de meros sonhos. Pois bem, é na realidade deste deserto que a Quaresma nos convida a peregrinar passo a passo, em busca de uma renovação da interioridade e de uma vida nova. Digo passo a passo, porque, no dizer de alguns, o caminho para a interioridade, para as profundezas do coração humano é o caminho mais longo que o homem tem que percorrer.

2. O alimento durante a travessia. “Naqueles dias, Ele (Jesus) não comeu nada e, ao final, teve fome”. Foi desse modo que Jesus se preparou para a sua vida pública e é assim que nós, seus seguidores, somos convidados a atravessar o deserto quaresmal rumo à Páscoa da Ressurreição. Para esse tempo, a tradicional proposta da Igreja para os fiéis está concretizada no tripé jejum-esmola-oração. É fácil perceber que é no contexto desse deserto que se deve interpretar e praticar estes exercícios quaresmais. Embora sejam diversas as circunstâncias de vida do povo e distintos os costumes que originam diferentes comportamentos – mesmo os referentes à religião – permanece sempre a interpretação original da prática quaresmal. Senão, vejamos:

2.1. Jejum. Diante desses novos tempos, a própria Igreja abrandou o jejum quaresmal reservando-o para a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. Mesmo às sextas-feiras sugere-se substituí-lo por alguma das obras de misericórdia. Para uma melhor compreensão do jejum que agrada ao Senhor, leia-se, por exemplo, todo o Capítulo 58 do profeta Isaias. E por que não praticar como jejum o “desconectar-se” um pouco do celular, de um mundo virtual e sem sentido, das novelas muitas vezes atentatórias à moral e à ética, dos filmes indignos de um comportamento sadio, para não dizer ridicularizadores da fé e da religião? Penso, ainda, numa outra prática do jejum que é evitar o triste desperdício de alimentos com todas as suas consequências… O Cânon 882 do Código de Direito Canônico afirma que “os tempos de penitência contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade do
coração”.

2.2. Esmola. Eis ai uma palavra que destoa dos novos tempos pelo que quase sempre significou de doar as sobras ou as inutilidades. Atualmente procura-se dar à esmola um sentido mais coerente com o amor ao próximo e com a partilha. Já no livro do profeta Tobias, o termo “esmola” carrega um sentido de partilha: “De teus bens, filho, dá de esmola, não desvies o rosto de nenhum pobre, para que de ti não se desvie a face de Deus. Segundo o que tiveres, conforme a importância dos teus bens, dá de esmola. Se tiveres pouco, não receies dar de esmola esse pouco… De fato, a esmola é uma oferenda valiosa para todos os que a dão na presença do Altíssimo” (Tb 4, 7-8; 11). Penso que na realidade atual, tal partilha poderá ser feita através de instituições de assistência e de ajuda aos mais necessitados.

2.3. Oração: Se toda a prática do tripé é fundamental para a peregrinação rumo à Páscoa, não pode restar nenhuma dúvida de que a oração é essencial. Essencial porque, sobretudo, é a prática habitual de Jesus. Quantas vezes podemos contar nos Evangelhos que “Jesus sobe ao monte para rezar…” (Mt 14, 23)? E em outras ocasiões, chama os discípulos a “subir” com ele? É oportuno lembrar, aqui, que a oração, sobretudo nos nossos tempos tão agitados e mutantes, é um aprendizado constante. Como os discípulos, peçamos a Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos”. E o Mestre lhes ensinou – e nos ensina – o Pai-nosso.

Concluindo, deixemo-nos interpelar pelas palavras com que, ano após ano, durante a Quaresma, repetimos com convicção: “Eis o tempo de conversão. Eis o dia da salvação. Ao Pai voltemos, juntos andemos. Eis o tempo de conversão! Os caminhos do Senhor são verdade, são amor. Dirigi os passos meus, em vós espero, ó Senhor”!

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo: Durante o tempo da Quaresma dedicar, a cada semana, um tempo razoável para a prática da Leitura orante da Palavra de Deus. Trata-se de uma preciosa experiência que muito haverá de nos ajudar nessa nossa peregrinação rumo à Páscoa da Ressurreição, a festa da Vida.

Despeço-me com o abraço fraterno de sempre.

Pe. José G. BERALDO
Equipe sacerdotal GEN MCC Brasil
E-mail: jberaldo79@gmail.com

P. José G. BERALDO

Equipo Sacerdotal GEN MCC Brasil

E-mail: jberaldo79@gmail.com

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