“Vi então um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.  Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus,  vestida como noiva enfeitada para o seu esposo.  Então, ouvi uma voz forte que saia do trono e dizia:  ‘Esta é a morada de Deus-com-os-homens. Ele vai morar junto deles.  Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será o seu Deus.  Ele enxugará toda lágrima de seus olhos.  A morte não existirá mais, e não haverá mais luto,  nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram’. Aquele que estava sentado no trono disse:  ‘Eis que faço novas todas as coisas’” (Ap 21, 1-5).

Amigos e irmãos no Senhor Jesus, saúdo-os com a viva esperança de “um novo céu e uma nova terra”, “morada de Deus-com-os-homens”,

Introdução. O equinócio de setembro marca o início da primavera nos hemisférios norte e sul, portanto, também no Brasil. O equinócio é um fenômeno astronômico em que o Sol atinge com maior intensidade as regiões próximas à linha do Equador e surgem as flores mais coloridas e as árvores tornam-se mais frondosas e, no horizonte já se antevê um novo tempo. Mas – pergunte-se – o que tem a ver um fenômeno da natureza com estas nossas reflexões mensais? Qual o recado de Deus para nós, sobretudo cristãos, com este início de uma nova estação primaveril? A longa perícope bíblica acima transcrita não seria já o recado que Deus tem para o seu Povo, a Igreja, hoje? Não convém ser lida bem pausadamente antes de entrar nestas nossas limitadas reflexões? Então, vamos lá.

  1. “No vosso caminho proclamai: ‘O Reino dos céus está próximo’” (Mt 10,7). É eterna a Palavra de Deus. Ontem, hoje e sempre! E para que o povo compreenda e assimile tão original anúncio, Jesus ordena aos doze que deve ser proclamado não só com as palavras, mas também com as obras: curar doentes, ressuscitar os mortos, purificar leprosos, expulsar demônios. Entretanto, em sendo eterna a Palavra, entendemos que o Reino é chegado hoje, para toda a humanidade (Lc 11,20) e mais, que o “Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,21). Pois bem: o povo de hoje, na sociedade de hoje, envolvido pela cultura de hoje, entende a linguagem de nossa proclamação do Reino de Deus? Se não a atualizarmos e persistirmos nela com a mesma linguagem dos tempos de Jesus ou como na Idade Média ou nos tempos da cristandade, como poderá ser entendida e levada à prática pelos homens e mulheres do século XXI, em 2018? Nossas pregações ou nossas palavras a respeito do Reino, revelam que sabemos que “mesmo que falássemos as línguas dos Homens ou dos anjos, mas não tivéssemos amor, seríamos como um bronze que soa ou um címbalo que retine” (cf.1Cor 13,1)?
  1. Uma nova primavera na Igreja.  Assim foi intitulado o Concílio Vaticano II (1961-1965) com suas orientações e documentos não tanto dogmáticos ou doutrinais, mas, sobretudo, pastorais e profundamente evangelizadores, condizentes com a nossa realidade histórica e cultural. Grande esperança de uma nova primavera na Igreja foi surgindo no coração dos seguidores de Jesus e em algumas práticas pastorais, tanto de parte da hierarquia como de católicos mais conscientes de sua missão evangelizadora.

Ao anunciar a convocação do Concílio, o Papa São João XXIII, a cujo lado aliás, pude estar pessoalmente em julho de 1960, usa algumas frases fortemente “primaverís”: “A ideia do Concílio não amadureceu como fruto de prolongada consideração, mas como o florir espontâneo de uma inesperada primavera” (Alocução 9/8/59). E ainda: “Consideramos inspiração do Altíssimo a ideia de convocar um Concílio Ecumênico, que desde o início de nosso pontificado se apresentou à nossa mente como o florir de uma inesperada primavera”. (Alocução, 5/6/60). Nas palavras dele mesmo a intenção era promover um “aggiornamento” para que entrasse “ar fresco na Igreja”; e também “abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora, e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa”, como explicou noutras ocasiões.

Infelizmente, à medida que decorria o tempo, foi-se impondo novamente uma mentalidade conservadora, enraizada muito mais na doutrina e na verdade dogmática do que na prática do Evangelho. Valores, critérios e práticas do passado? Sim… oportunos e providenciais para aquele tempo, para aqueles homens e mulheres comprometidos com a fé em Jesus – muitos deles e delas santos e santas – servindo, também para nós, como experiência na jornada que estamos percorrendo rumo ao Reino definitivo, mas que, em nossos dias, em tempos de uma “sociedade líquida”[1] ou de “pensamento débil”[2] são parte de uma linguagem impossível de ser compreendida e praticada. Sobretudo, pelos jovens e por todos os que desejam peregrinar pelo caminho de Jesus.

Lembremo-nos, ainda, de como se expressa o Papa Francisco na Bula “Misericordiae vultus”, instituindo o Jubileu Extraordinário da Misericórdia: “… Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento. Começava então, para ela, um percurso novo da sua história. Os Padres, reunidos no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova etapa na evangelização de sempre. Um novo compromisso para todos os cristãos de testemunharem, com mais entusiasmo e convicção, a sua fé. A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai!” (MV 4).

 

  1. “A alegria do Evangelho” é o novo nome primaveril de uma “Igreja em saída”. Porque essa Exortação Apostólica – que, aliás, a meu juízo – deveria ser mais conhecida e praticada – do Papa Francisco traz como subtítulo “sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”. Segue-se daí a primeira exigência para essa outra nova primavera expressada no título do seu primeiro capítulo: “A transformação missionária da Igreja”. Se nós, católicos, não soubermos ou não quisermos assumir uma nova mentalidade mais de acordo com o Evangelho de Jesus, jamais haveremos de ser “sal, fermento e luz” nos novos tempos de uma nova cultura. Diminuiremos de número? Não seremos mais milhões ou bilhões de católicos? É possível. Mas haveremos de ser sempre aquele pequeno rebanho de Jesus, sem medo, sem temor, corajoso e transpirando esperança: “Não tenhas medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar a vós o Reino” (Lc 12,32).

Conclusão: Para usar uma linguagem apocalíptica, repetimos que “A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram”.  E – permitam-me – devemos fazer coro com o Papa Francisco: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal adequado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27).

Despeço-me com meu usual e carinhoso abraço, desejando que sejamos todos agentes da opção missionária que realizaria o sonho de nosso querido Pastor.

Pe. José Gilberto BERALDO

Equipe Sacerdotal do GEN

MCC do Brasil

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