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Esta seção, nas subcategorias abaixo, contém inúmeros artigos e textos de estudo úteis para a formação de Cursilhistas e Responsáveis no MCC.

Colaborações poderão ser enviadas ao e-mail mcc.noticias@cursilho.org.br , observados os critérios abaixo –  e serão incluídas se forem aprovadas pelo GEN.

Os artigos deverão:

  1. versar sobre temas do MCC, da Igreja, da Sagrada Escritura, por exemplo, ou sobre assuntos da atualidade abordados sob o ponto de vista do MCC, da Igreja, da Sagrada Escritura…
  2. ser digitados em Word e seu tamanho não deverá exceder 5000 caracteres.
  3. conter o nome completo do seu autor e informações sobre o mesmo (mini-biografia) e seu trabalho no MCC, quando for o caso (texto que não deverá exceder 400 caracteres).

DAR TESTEMUNHO OU SER TESTEMUNHA?

Pe. José Gilberto Beraldo

O Movimento de Cursilhos define-se por ser um movimento de Igreja. Portanto, um movimento de evangelização, isto é, um movimento de anúncio do Reino de Deus e de seus valores. Pergunta-se: de que maneira o Movimento faz isso?

De há muito, desde o início de sua prática, em 1949, e de sua definição, em 1968, a opção do MCC é pelo método querigmático-vivencial. Trata-se de um método de evangelização que dá prioridade menos ao ensinamento de uma doutrina e mais ao anúncio das verdades fundamentais da fé. Isso significa proclamar com a vida aquilo que se crê no coração. Esse anúncio, entretanto, não é feito em tom professoral, como quem ensina teoricamente ou como quem expõe suas opiniões de maneira fria e impessoal – assim fazem os professores e catedráticos. O anúncio que o Movimento de Cursilhos faz é uma proclamação vivencial de Jesus e do seu Evangelho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Ora, para ter credibilidade suficiente para anunciar o Reino de Deus, é preciso estar vivendo os valores desse Reino; é preciso esforçar-se, a cada momento, a cada instante e em todos os lugares e situações, para encarná-los na própria vida. Os valores do Reino são, entre outros, a fraternidade, a justiça, o amor, a solidariedade, o perdão, etc. E devem ser anunciados do mesmo modo que o fazia Jesus de quem, quando falava ao seu povo e ensinava através de parábolas, o Evangelho dizia: “Ele ensina como quem tem autoridade” (Mt 7,29).

Vê-se, pois, que não é suficiente “dar testemunhos”, isto é, não basta “contar casos” ou desfiar tragédias pessoais ou acontecimentos da vida diante dos ouvintes, terminando por dizer que “depois que eu encontrei Cristo, tudo melhorou para mim”. De fato, Jesus enviou seus apóstolos não para “dar” testemunhos ou para “contar” testemunhos, e sim para ser testemunhas. O “dar testemunho” deveria ser, sempre, uma decorrência lógica do “ser testemunha”. E ser testemunha é o grande desafio dos cristãos de hoje que desejem ser seguidores do próprio Jesus.

Num mundo e numa cultura onde vale quase que exclusivamente a experiência pessoal, só se pode ser autêntica testemunha do Reino quando deste se faz a experiência cotidiana. É isso que Jesus quer de nós quando, ao enviar-nos como o fez com os apóstolos, para anunciar a libertação e a redenção de todo homem e de toda mulher, para anunciar a Boa Notícia em todas as partes da terra até o fim dos tempos, nos diz: “E sereis minhas testemunhas em Jerusalém e Samaria e até os confins do mundo” (At 1,8).

O anúncio só pode nascer da encarnação, na vida de cada cristão, dos ensinamentos do nosso Mestre e Senhor!

 

Pe. José Gilberto Beraldo, hoje Assessor Eclesiástico Nacional Vitalício Benemérito do GEN, vem atuando há mais de 40 anos no MCC. Foi, durante muitos anos, o Assessor Eclesiástico Nacional, e desempenhou essa mesma função durante o mandato do OMCC no Brasil. Há tempos escreve, mensalmente, uma Carta ao MCC do Brasil. Além de escrever para a revista Alavanca, tem dois livros publicados: CARTAS e DECÁLOGO DE UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO INCULTURADA.

FUNDADORES: Oráculos, Ícones ou Profetas?

Pe. José Gilberto Beraldo

Dois acontecimentos coincidentes e significativos – o primeiro relacionado com o MCC e pessoal o outro – bem como a leitura de artigos e opiniões, com frequência publicados em boletins de GEDs do MCC do Brasil e de fora, sugerem-me algumas considerações em torno do tema anunciado. Se elas conseguirem contribuir, pouco que seja, para um necessário discernimento em torno de práticas vitais para o presente e, sobretudo, para o futuro do Movimento, não terão sido inúteis.

O primeiro acontecimento diz respeito ao 5º Encontro Mundial do MCC, a realizar-se em Seul (Coreia), do qual participaremos como delegados do Brasil (o Coordenador Nacional, Francisco Alberto Coutinho e eu). Sobre alguns temas já de nosso conhecimento e objeto de estudo do Grupo de Apoio na última reunião, delegações de diferentes países irão partilhar experiências e tirar conclusões, que esperamos atuais e, por isso, oportunas para o Movimento.

O segundo: há exatos trinta anos, um ainda jovem sacerdote vindo do interior, vivia, na recém inaugurada Casa de Cursilhos da Marcondésia, a experiência, sem dúvida inesquecível, do seu primeiro Cursilho – o 54º da Arquidio0cese de São Paulo – seguido por outros quase duzentos. Na “clausura”, no momento do seu “testemunho final”, erguendo-se do seu lugar e postando-se diante do imponente Crucifixo que dominava a sala repleta, tomado por visível e compreensível emoção, renovava ao Senhor e à Igreja concretizada na pequena comunidade ali presente, sua declaração de amor missionário (textualmente: “diante de Tua face divina e humana e tomando esses irmãos e irmãs por testemunhas, renovo a consagração de minha vida ao Teu Reino e aos Cursilhos, caso de mim, algum dia, precisarem”).

Era eu aquele sacerdote entusiasmado que, depois de introduzir, em 1969, o MCC em minha Diocese, logo em 1970 fui convidado a participar do 3º Encontro Latino-americano, em Itaici. Daí por diante, levado primeiro pelas mãos do inesquecível amigo e irmão Pe. Paulo Cañelles, o mais destacado introdutor do Movimento no Brasil (1962) e, depois, pelos deveres inerentes às funções dele herdadas como Assessor Nacional, participei do 2º, 3º e 4º Encontro Mundiais (México, Mallorca e Caracas) e de todos os Continentais e Nacionais. Pelo 3º Encontro Mundial fui escolhido, com mais 13 dirigentes do universo dos Cursilhos, para a redação definitiva das primeiras “Ideias Fundamentais do MCC” (Mallorca, 1972).

Com a singeleza desse relato, minha única pretensão é falar das gratificantes oportunidades que me foram dadas para conviver e tratar de perto, com muito respeito e grande admiração, com vários iniciadores do MCC, incluídos o próprio D. Juan Hervás, Eduardo Bonnín, os irmãos sacerdotes Juán e Jaime Capó, Jaime Daviú, Cesário Gil Átrio e outros. Lembro, de maneira especial, com seu constante interesse e sua correspondência epistolar, o querido Mons. Sebastián Gayá, este sim, operário de primeiríssima hora, mas ainda fiel nos seus já avançados anos de vida e de Movimento.

Ao mesmo tempo que leio, estudo e aprofundo a reflexão em torno dos temas que serão objeto das atenções do 5º Encontro Mundial, tenho sob os olhos mais alguns escritos e artigos sobre a prática do MCC que, daqui e dali, chegam ao GEN. Também esse estudo, como já afirmei, deu-me excelente ensejo para as considerações aqui apresentadas, uma vez que tanto nos documentos preparatórios ao Encontro, como nos artigos, encontram-se fartas referências aos “fundadores” e a uma literatura que compõe um rico acervo do MCC.

Por razões óbvias, tais referências bibliográficas são, não apenas necessárias, mas até imprescindíveis em documentos desse gênero. Em se tratando, porém, de pôr em prática propostas nelas advogadas, e que muitos resultados positivos apresentaram no passado, sobretudo em dimensões pessoais, nem sempre elas têm-se revelado inteiramente adequadas ao presente. E isso por múltiplas razões: ou pelas inevitáveis e aceleradas transformações culturais próprias do nosso tempo; ou pelas exigências de uma nova evangelização inculturada, quer nos métodos, quer nas expressões, quer no ardor ou, então, pelas necessárias e urgentes adequações das próprias opções pastorais características de cada Igreja.

Sem qualquer receio, tal bibliografia podemo chamá-la de “oficiosa”, porque a orientação oficial do MCC é buscada em Documentos oficiais, aprovados em Encontros nos diferentes níveis e em Assembleias Nacionais e destinados a atualizar o Movimento, e não exarada neste ou naquele texto, mesmo que respeitável e de autor respeitável. Como exemplo: “Echad vuestras redes”, “Manual de Dirigentes de Cursilhos de Cristiandad”, “Ideário” e outros. Aliás, é oportuno recordar que algumas dessas obras brotaram da pena dos próprios iniciadores (que é a expressão utilizada, por tradição, no seio do Movimento, em vez de “fundadores”). Um deles, Eduardo Bonnín, apresentará ao V Encontro Mundial o tema introdutório: “O carisma fundacional do Movimento de Cursilhos”.

Pois bem: lembro tudo isso para colocar em evidência esses “fundadores” (com maior ou menor destaque, cada um o foi no contexto de suas realidades). Iluminados todos eles – assim o acreditamos – pelas luzes do Espírito Santo, fortalecidos pela graça do Pai e impulsionados pela presença do Cristo Jesus, fizeram história na Igreja, ao criar e propagar, no contexto cultural, espiritual e religioso de sua época, um movimento de evangelização. E cuidaram, ainda, de provê-lo de instrumentos que, então, lhes pareciam os mais adequados para levar seus membros à santidade e ao apostolado. Deixaram, pois, um rastro de luz em seus livros, em seus escritos e em suas orientações. Sem analisar, por enquanto, o mérito desse acervo bibliográfico e de sua aplicação no presente (fá-la-ei em outra ocasião), volto ao tema proposto: “Fundadores: oráculos, ícones ou profetas”.

Sabe-se que já enfrentaram sérias dificuldades – e algumas ainda as enfrentam – ordens, congregações e outras instituições eclesiais, quer de religiosos ou mesmo de leigos, ao tratarem de adequar suas regras, normas e práticas ao tempo presente. O mesmo pode-se dizer dos movimentos de Igreja nascidos em épocas mais ou menos distantes ou, até, no período imediatamente anterior ao Concílio Vaticano II.

Pois o dilema está em não renunciar ao seu carisma fundacional – o que lhes desvirtuaria a razão de existir – e, ao mesmo tempo, convencer-se da absoluta necessidade de um corajoso aggionarmento. Face a essa urgência, têm elas buscado no espírito, nas intenções ou, conforme a clássica expressão, na “mente” dos respectivos fundadores o fio condutor de um processo de renovação que, ao mesmo tempo, lhes assegure a autenticidade e a criatividade dos objetivos que as inspiraram. É precisamente aí que residem os desafios: com que lentes devem ser vistos os fundadores? Como oráculos, como ícones ou como profetas? E as regras ou orientações por eles ditadas, devem ser lidas como dogmáticas e, por isso, imutáveis? Parece claro que uma interpretação que mais se aproxime das intenções deles ou de suas “mentes” dependerá, substancialmente, da cor das lentes que se usarem.

Seriam eles oráculos? Vem em nosso socorro, Mestre Aurélio mostrando os seguintes significados no verbete “oráculo”: 1. Resposta de um Deus a quem o consultava. 2. Fig. Divindade que responde a consultas e orienta o crente. 3. Palavra, sentença ou decisão inspirada, infalível, ou que tem grande autoridade. 4. Fig. Pessoa cuja palavra ou conselho tem muito peso ou inspira absoluta confiança”. Por óbvio, supõem-se descartadas as primeiras duas referências. Quanto à terceira, por razões de fé, há que se considerar não serem infalíveis quaisquer palavras, sentenças ou decisões humanas (exceto, para os católicos, as do Papa quando define “ex-cathedra” assunto de fé e moral).

Os fundadores, portanto, deveriam ser vistos como pessoas cuja palavra, sentença ou decisão, externadas também em suas obras, são inspiradas e que têm grande autoridade. Seus conselhos, de muito peso, inspiram absoluta confiança. Mas, como não se vive mais no tempo deles e, sim, num contexto histórico e cultural em vertiginosa mutação, há que lhes captar o espírito das sentenças, palavras e conselhos e não ater-se, escravizados, à palavra ou à letra. Fundadores ou iniciadores, como se preferir, não são, pois, oráculos e, nem muito menos deuses ou divindades infalíveis. Ainda que alguns possam assim julgar-se ou seus seguidores julgá-los como tais. Nesse caso, não só perdem aqueles a credibilidade como se lhes desfalece a autoridade, e estes acabam resvalando para o culto à personalidade, que, sem dúvida, é a nova forma da idolatria.

Ou, quem sabe, seriam os fundadores “ícones”? De novo, recorremos ao velho e bom Aurélio. Afora a definição como uma ”representação peculiar de Cristo e da Virgem Maria na Igreja russa e na grega”, somos remetidos aos verbetes “imagem” e “ídolo”. Naquele, encontramos “símbolos” como o mais adequado à nossa argumentação. De fato, tornam-se os fundadores, ou deveriam tornar-se, verdadeiros símbolos ou exemplos para seus seguidores. E jamais entronizar-se como ícones imóveis, fixados no tempo e no espaço e mumificados em suas opiniões e conselhos. De “ídolos”, nem sequer se deveria falar. Mas, quem sabe? Não seria algum de nós tentado, consciente ou inconscientemente, a tratá-los como tais? Ou, assim que abrem a boca para emitir orientações desatualizadas, anacrônicas e, até, francamente contrárias às decisões de Encontros e à Documentação oficial, aplaudi-los, sem qualquer senso crítico?

Seriam ou teriam sido profetas, os fundadores? Ah! Sim, disso entendemos nós. Podemos dispensar o Aurélio. Porque sabemos todos ou deveríamos saber, pela frequência à Palavra de Deus, que profeta é aquele que anuncia e que denuncia; aquele que fez obras da fé no presente, mas projeta para o futuro sua visão e suas intenções. Basta prestar atenção às atitudes dos mais antigos ou dos mais novos fundadores. Sempre disponíveis para os caminhos do Senhor; abertos ao futuro; sensíveis aos apelos do seu presente, mas deixando livres seus seguidores para a necessária adaptação às mudanças culturais; atentos aos sinais dos tempos, renovando-se e revisando suas posturas para, com maior eficácia e mais sólida convicção, fugir às limitações que impeçam a criatividade e sem fórmulas mágicas cerceando a “liberdade dos filhos de Deus” (Cf. Rm 8,21; 2Cor 3,17; Gal 5,1.13).

Assim foram um Paulo de Tarso, o evangelizador por excelência e insigne Patrono do MCC; um Bento de Núrcia, Patriarca dos Monges do Ocidente e Pai dos beneditinos; um Francisco de Assis, fundador dos franciscanos, cujas regras de vida perpassam os séculos, sempre antigas e sempre renovadas; assim o fizeram um Domingos de Gusmão, fundador dos dominicanos; um Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas; uma Teresa D’Ávila, Mãe da Ordem das Carmelitas e um Afonso de Ligório, fundador dos redentoristas, que chegou, até, a ser expulso da Congregação que ele próprio fundara; assim o vivenciaram já bem perto de nós, um João Bosco, fundador dos salesianos e um Tiago Alberione, fundador dos Paulinos, e leigos como um Federico Ozanam e um Carlos de Foucald e tantos outros e tantas outras…

Sim, não foram eles nem oráculos e nem ícones! Foram profetas, pois continuam vivos e palpitantes por não terem sido definitivos e intransigentes, continuam suas orientações sendo sempre atuais, porque sempre dinâmicas e sempre flexíveis para sempre melhor servir à causa do Reino de Deus, conformando-se com as diretrizes e orientações da Igreja de hoje, projetando-se para o futuro. É isso, pois, que esperamos também dos nossos “fundadores” ou “iniciadores”.

Julgo ser sob a luz desse prisma que devem vê-los seus seguidores se pretenderem ser fiéis à voz do Espírito de Deus. Sem dúvida, o Senhor pode estar ainda falando pela boca e pelas obras daqueles que, no passado, revelaram-se sábios pelo vigor e oportunidade de suas propostas, contanto saibam ser prudentes, santamente ousados e criativos no tempo presente, revisando suas práticas e buscando-lhes a atualização à luz de uma “Nova Evangelização: nova nos métodos, nova nas expressões, nova no ardor” (cf. João Paulo II, Discurso à 19ª Assembleia Geral do CELAM, Haiti, 09.03.83).

Assim, sábios no passado; sábios, prudentes, ousados e criativos no presente, serão, eles e os que os seguirem, santos, sábios, prudentes, ousados e criativos PROFETAS do e no terceiro milênio.

 

Pe. José Gilberto Beraldo, hoje Assessor Eclesiástico Nacional Vitalício Benemérito do GEN, vem atuando há mais de 40 anos no MCC. Foi, durante muitos anos, o Assessor Eclesiástico Nacional, e desempenhou essa mesma função durante o mandato do OMCC no Brasil. Há tempos escreve, mensalmente, uma Carta ao MCC do Brasil. Além de escrever para a revista Alavanca, tem dois livros publicados: CARTAS e DECÁLOGO DE UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO INCULTURADA.

I ENCONTRO NACIONAL DOS MOVIMENTOS ECLESIAIS

Pe. José Gilberto Beraldo

Antecedido por um breve encontro com os Assessores Eclesiásticos e Diretores Espirituais dos Movimentos, realizou-se em Goiânia (GO), o I ENME convocado pela CNBB e organizado pelo Setor Leigos da CEP (Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB), em parceria com o CNL (Conselho Nacional de Leigos e Leigas Católicos).

Deixando de lado considerações sobre aspectos celebrativos e de conteúdo, quero, aqui, no contexto do Encontro e tendo como pano de fundo o que lá vivi, propor uma breve reflexão sobre dois pontos que julgo fundamentais.

1º. Os Movimentos Eclesiais hoje e sua relação com a hierarquia, especialmente com os párocos. Nos fugazes dois minutos concedidos aos enfileirados na “fila do povo”, lembrei o fato de este ou aquele Movimento ser não só antipatizado mas, até, proibido por alguns párocos. Por isso, chamei a atenção dos presentes, entre os quais alguns bispos (um deles, aliás, apoiou sem reservas minhas palavras), sobre a urgente necessidade de, nos seminários, apresentar-se aos seminaristas, algo mais substancioso a respeito dos Movimentos eclesiais do que somente algumas informações que, em geral, pecam pela superficialidade. Estas ficam, via de regra, no nível do emocional e do jogo de conquista. Chega-se, até, a pagar os estudos e subsidiar despesas de alguns seminaristas com o objetivo declarado de cooptá-los para o respectivo Movimento.

Amanhã, como responsável por uma paróquia (alguns julgam-se e declaram-se donos!), como que inoculados pelo demoníaco vírus do poder eclesiástico, acham-se no direito de, arbitrariamente, aceitar ou não, este ou aquele Movimento. Pior, com isso discriminam as pessoas, limitam ou cerceiam de vez sua participação na comunidade eclesial. Tal atitude, além de desanimar leigos e leigas, impedem sua inserção nas realidades do mundo, ali agindo como fermento, sal e luz. Nada contra que haja Movimentos mais ou menos oportunos ou preferenciais nesta ou naquela Diocese. Mas que o discernimento de tal oportunidade ou preferência seja feito em nível diocesano e no contexto da Pastoral da Diocese. E não seja deixado, somente, ao critério deste ou daquele pároco. Que, como qualquer outro ser humano, está sujeito a variações de humor.

Enfatizo, portanto, a urgente necessidade de se apresentar aos que se preparam para o ministério sacerdotal, fundamentos bíblicos e teológicos dos carismas e da ação pastoral dos Movimentos e Novas Comunidades. Se até aqui tal medida não foi tomada, deve-se, a meu ver, à estrutura tradicionalmente rígida da organização das dioceses e paróquias.

Os novos Movimentos trouxeram à Igreja desafios diferentes dos tradicionais exigindo criatividade e ampliação dos horizontes pastorais. Eles estão aí e são irreversíveis. Se não forem colocados embasamentos substancialmente teológicos e bíblicos, o discernimento ficará, apenas, no nível da simpatia ou da antipatia; do “eu quero” ou do “eu não permito”; do “eu gosto” ou do “eu não tolero”! No que se refere ao Movimento de Cursilhos, quantas vezes os chavões, usados por muitos padres e bispos, “já era” e “já passou da moda”, têm impedido que os leigos se organizem nos seus próprios ambientes porque – julgam eles – é necessária a licença explícita dos párocos.

Acrescente-se que estes desconhecem não só razões bíblicas e teológicas sobre a missão do leigo, mas fazem questão, alguns, de nem sequer tomar conhecimento dos recentes Documentos sobre essa missão. A continuar as coisas dessa maneira, como poderá iniciar-se um diálogo produtivo e fraterno sobre as responsabilidades que recaem naqueles que optaram pelo seguimento de Jesus e que, por isso, desejam, ardentemente, ser evangelizadores e apóstolos fora das sacristias? Por que não abrir-se para a aceitação de novas propostas pastorais, acrescentando às já existentes e estruturadas, iniciativas mais adequadas à missão específica do cristão leigo nesta nova cultura? No caso do MCC, porque não acrescentar às opções e prioridades pastorais a Evangelização dos Ambientes?

Concluo: falta ao clero, de maneira geral, e aos párocos em particular, um aprofundamento adequado das razões teológicas e bíblicas para discernir carismas e vocações de Movimentos e Novas Comunidades. Só aparecem as motivações pastorais. Oportunas, sem dúvida, mas incompletas quanto ao apelo mais amplo e radical do seguimento de Jesus pelos leigos e leigas, nesta nova cultura e nestes novos tempos.

. Uma pergunta aparentemente ociosa: que Igreja queremos fazer, os Movimentos e as Novas Comunidades, no terceiro milênio? A teóloga leiga Maria Clara Bingemer foi suficientemente clara em sua palestra. Como não me cabia qualquer responsabilidade em torno do Encontro, dediquei-me a ouvir tudo, com muita atenção. Ouvi muito durante o I ENME. Ouvi os leigos, ouvi os padres, ouvi assessoras e assessores sacerdotes, leigos e leigas. Ouvi muitas afirmações taxativas. Ouvi declarações mais ou menos definitivas sobre os vários movimentos. Outras, nem tanto. Mas a pergunta e a competente resposta que eu tanto esperava ouvir, essas não ouvi. Mas não quero decepcioná-los, meu caro leitor, minha possível leitora. Vou ensaiar uma resposta. Aliás, não é minha. Recolho-a do próprio Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Ecclesia in America”. A Igreja que queremos, a meu ver, está nessa afirmação que permeia o inteiro documento, mesmo porque ela foi o tema da Assembleia Especial do Sínodo para a América: “Encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade na América”. Ouso acrescentar: “para a missão”. Eis aí a Igreja que Jesus quer. Eis a Igreja que queremos. Eis a missão com a qual nos comprometemos.

 

Pe. José Gilberto Beraldo, hoje Assessor Eclesiástico Nacional Vitalício Benemérito do GEN, vem atuando há mais de 40 anos no MCC. Foi, durante muitos anos, o Assessor Eclesiástico Nacional, e desempenhou essa mesma função durante o mandato do OMCC no Brasil. Há tempos escreve, mensalmente, uma Carta ao MCC do Brasil. Além de escrever para a revista Alavanca, tem dois livros publicados: CARTAS e DECÁLOGO DE UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO INCULTURADA.

PASTORAL AMBIENTAL OU EVANGELIZAÇÃO DOS AMBIENTES?

Pe. José Gilberto Beraldo

Oficialmente, nos Planos de Pastoral, quer nacionais quer diocesanos, a Pastoral Ambiental não existe. Trata-se de uma opção do Movimento de Cursilhos. Quando, em 1972-1974, foi redigido o texto oficial do Movimento, “Ideias Fundamentais do MCC”, elegeu-se essa modalidade de ação pastoral no contexto da “Pastoral Querigmática”. Atendendo, depois, ao apelo do Papa Paulo VI na sua famosa Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (A Evangelização no Mundo Contemporâneo, 1975), que afirma que “se impõe a tarefa de evangelizar a cultura e as culturas do homem, não como um verniz, mas em profundidade” (EN 18-20), nos pontos-chaves onde se encontram o mundo e a fé, o MCC chamou a essa ação de PASTORAL AMBIENTAL, pois, levou em conta que esses pontos-chaves são os ambientes específicos onde as pessoas vivem a maior parte do seu tempo e onde, de maneira natural, nasce e se desenvolve a cultura de um povo.

Já os iniciadores haviam ensinado que a busca dos candidatos ao Cursilhos deveria ser feita nos “ambientes decisórios” (muitas vezes equivocadamente interpretados como os ambientes exclusivos da elite econômica ou política ou social…) da sociedade.

Infelizmente, nem a hierarquia tomou conhecimento dessa “invenção” do MCC (que continuou a ser usado como mão de obra paroquial ou como fornecedor de lideranças para outros movimentos e pastorais), nem o MCC demonstrou com a prática, o que tão bem soube definir na teoria. Esqueceu-se do rudimentar: só existe e é reconhecido o que é visto, assumido e praticado! Aliás, frequentemente me perguntam se quem faz “Pastoral Ambiental” está comprometido com alguma ONG defensora da ecologia ou trabalha pela preservação do meio ambiente! Ainda que muitos cursilhistas houvessem bem compreendido sua missão e se esforçassem para vivenciá-la nos seus ambientes, ela permaneceu quase sempre como algo particular, individual.

Não tendo se organizado satisfatoriamente em pequenos grupos (núcleos) nos ambientes, apesar de todas as orientações e insistências, a Pastoral Ambiental, específica do MCC, continua ainda ancorada nas boas intenções e, salvo algumas exceções, apenas vislumbrada nos projetos dos Núcleos de Comunidades Ambientais.

Quanto à aceitação oficial dessa prática pastoral pela hierarquia, os primeiros indícios aparecem no Documento 62 da CNBB que, em seu número 121, refere-se às “pequenas comunidades de fé” nos ambientes profissionais. Isso no contexto da Pastoral Urbana que é o verdadeiro lugar do MCC.

Salvo melhor juízo, opino que deveríamos, nós do MCC, rever a expressão “Pastoral Ambiental”, para adequá-la a uma nova visão eclesial mais preocupada, agora, com a EVANGELIZAÇÃO. Isto é, preocupada com os que, a qualquer título, estão fora do rebanho e, portanto, necessitam de ouvir o anúncio querigmático da Boa Notícia. Os que já estão no aconchego do rebanho precisam mesmo é da manutenção pastoral. Os que estão fora necessitam ser atingidos lá onde vivem, trabalham e transformam a cultura: nos respectivos ambientes.

As mesmas “Diretrizes” da Ação da Igreja foram mudadas de “Ação pastoral” para “Ação evangelizadora”, ou seja, são agora “Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil”. Por isso, em vez de continuar insistindo no termo “Pastoral Ambiental”, é urgente começar a praticar a EVANGELIZAÇÃO DOS AMBIENTES.

E, com urgência, temos que abrir diálogo com bispos, padres e agentes de pastoral para mostrar que o nosso carisma, sem fugir da insubstituível pertença pessoal à comunidade eclesial, está na Evangelização dos ambientes.

No momento em que pudermos demonstrar que os ambientes estão sendo efetivamente evangelizados através de pequenas comunidades de fé (núcleos) presentes neles, então terá chegado a hora de buscar o reconhecimento do Movimento de Cursilhos nos Planos de Pastoral ou no conjunto da Pastoral Orgânica. O MCC passará a ser uma ferramenta adequada para a Evangelização dos ambientes. Esse é um desafio de vida ou morte para o Movimento.

Ficaremos felizes e realizados como evangelizadores deste terceiro milênio, quando, ao abrirmos os cadernos das Dioceses onde se descrevem as atividades pastorais e evangelizadoras e onde constam os seus agentes, pudermos ler: “MOVIMENTO DE CURSILHOS”, carisma “EVANGELIZAÇÃO DOS AMBIENTES”. Por alimentarmos a firme esperança de que isto vai acontecer muito em breve, graças antecipadas sejam dadas a Deus!

 

Pe. José Gilberto Beraldo, hoje Assessor Eclesiástico Nacional Vitalício Benemérito do GEN, vem atuando há mais de 40 anos no MCC. Foi, durante muitos anos, o Assessor Eclesiástico Nacional, e desempenhou essa mesma função durante o mandato do OMCC no Brasil. Há tempos escreve, mensalmente, uma Carta ao MCC do Brasil. Além de escrever para a revista Alavanca, tem dois livros publicados: CARTAS e DECÁLOGO DE UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO INCULTURADA.

ULTREIAS DESENCARNADAS

Pe. José Baptista

“Levantemos âncora e façamo-nos ao largo, 
pois espera-nos o mar imenso do futuro”

Sai o “Fermento” entre duas grandes festas litúrgicas: a Ascensão e o Pentecostes. Se por um lado contemplamos Cristo glorificado, por outro o Espírito Santo gere e dá alento à Igreja para que continue assim a construção do Reino de Deus.

Um perigo assola hoje a Igreja. Ela fecha-se em si mesma num espiritualismo desencarnado com religião e religião, esquecendo-se da sua encarnação no dia a dia da vida. As pessoas correm atrás da religião e de atos religiosos, o que quase sempre está bem longe de ser uma busca de um cristianismo autêntico e, principalmente, de uma adesão à Igreja. Li algures que a “nova religiosidade nem sempre parece muito preocupada com Deus, e sim com a satisfação, o entusiasmo ou a paz interior de cada pessoa”.

Não se estranha, por isso, como tem sido difícil para muitos cursilhistas perseverar na fé através das Ultreias. Estas parecem não “encher o coração”, já que, às vezes, parece que ali as pessoas só procuram a emoção, o sentimento, a descoberta de algo de diferente que amaine ou faça esquecer a vida dura da sociedade competitiva e cheia de riscos.

Caros amigos, não se faça das Ultreias essa nova religião desencarnada, onde se procura mais o próprio eu do que o Deus de Jesus Cristo. Um dia desses, conversando com um amigo sacerdote sobre esse desafio colocado à Igreja, que é o fato de as pessoas aparentemente quererem só acontecimentos que aqueçam o coração e não lhes falem da vida, razão talvez de muitos recusarem a “revisão de vida” – perguntava ele: “Será que, hoje, tem-se de “cristianizar” a religião?”.

Fiquei pensativo, pois é verdade que um dos desafios que se coloca não será tanto aproximar as pessoas da religião, mas levá-las a seguir o Evangelho e a praticar a autêntica religião cristã.

A vós, cursilhistas, que tendes como missão “fermentar de Evangelho os ambientes”, a hora é de não cairdes na tentação da religião pela religião, do fazer da vida espiritual um espiritualismo desencarnado, mas sim assumir, de forma clara, o que nos diz o livro “Ideias Fundamentais”.

Vede que o Papa João Paulo II está a chamar-nos de maneira clara a “olhar para a frente”, a “fazer-nos ao largo”, confiados na Palavra de Cristo. E acrescenta: “na causa do Reino não há tempo para olhar para atrás, menos ainda para dar-se à preguiça”.

 

Esse artigo foi publicado na edição de junho de 2001, do jornal “Fermento”, do Movimento de Cursilhos da Diocese do Porto, Portugal. Foi introduzido nesta seção de artigos porque continua extremamente atual! 

A EXORTAÇÃO APOSTÓLICA “VERBUM DOMINI” E O MOVIMENTO DE CURSILHOS DE CRISTANDADE – MCC (I)

A EXORTAÇÃO APOSTÓLICA “VERBUM DOMINI”[1] E O MOVIMENTO DE CURSILHOS DE CRISTANDADE – MCC (I)

Pe. José Gilberto Beraldo

Introdução

O que é um “Sínodo”. Depois do Concílio Vaticano II (1961-1965) institui-se na Igreja Católica o Sínodo dos Bispos que, em suas Assembleias Gerais Ordinárias convocadas de tempos em tempos, trata de discernir e aplicar na práxis eclesial algum dos Documentos conciliares. Uma Assembleia Geral Ordinária do Sínodo é, como a própria expressão já o diz, uma reunião de Bispos representantes do Episcopado de todo o mundo, de convidados de outras igrejas e de outras crenças que podem contribuir com o diálogo e a comunhão fraterna e, sobretudo, pode contar com a presença do Papa. Periodicamente convocadas pelo Papa, essas Assembleias Gerais acontecem no Vaticano para refletir, à luz da Palavra Deus e dos Documentos conciliares, sobre temas da atualidade, previamente escolhidos, e de interesse para a evangelização da cultura moderna, do homem e da mulher de hoje[2].

As propostas de uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (em latim: “propositiones“). Terminada a Assembleia Geral do Sínodo, os Bispos apresentam ao Papa suas sugestões ou propostas. Geralmente depois de ano e meio ou dois durante os quais ele as estuda, o Papa torna aquelas propostas oficiais através de um Documento chamado “Exortação Apostólica”. Esta não tem o alcance de uma Encíclica, mas trata-se de orientações fundamentais e atuais para uma presença pastoral mais efetiva da Igreja no mundo e para o trabalho evangelizador dos católicos. Daí deriva a necessidade de os católicos acolherem as Exortações Apostólicas com o mesmo respeito e a mesma prudência com que acolheriam uma Encíclica papal.

Evidentemente, sendo um documento de tal importância, emanado do magistério eclesiástico, além do respeito e prudência com que é acolhido, deve também exigir de toda a Igreja – Bispos, sacerdotes, agentes de pastoral, movimentos eclesiais, associações religiosas, leigos e leigas – especial reflexão e atento estudo e, é claro, um grande esforço e muita dedicação para levá-lo à prática na sua missão evangelizadora.

Dessa forma, creio ficar devidamente esclarecido o motivo pelo qual quero propor alguns pontos de reflexão ao Movimento de Cursilhos do Brasil e sua relação com a VD. Neste primeiro artigo vamos apresentar uma síntese global da VD para, em seguida, em outros artigos, mostrar sua incidência no MCC, especialmente nas suas três fases: o encontro consigo mesmo, o encontro com Cristo e o encontro com o mundo, tanto com o intra-eclesial como com o extra-eclesial.

1.            A Exortação Apostólica “VD”[3]: tema e síntese

1.1.       O tema da “VD”

Tendo como tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, realizou-se no Vaticano, de 5 a 26 de outubro de 2008, a XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.[4] Datada de 30 de setembro de 2010 – dia-memória de São Jerônimo, um dos maiores estudiosos e tradutores da Bíblia, Palavra de Deus, – o Santo Padre, o Papa promulgou solenemente uma Exortação Apostólica com o mesmo tema. Seu documento inspirador é a Constituição dogmática Dei Verbum.

Mas, pode-se perguntar, porque esse título para a Exortação Apostólica DV? A resposta é simples: porque Encíclicas papais, Exortações Apostólicas, Bulas, Breves e outros Decretos pontifícios são normalmente conhecidos pelas duas primeiras palavras que iniciam o texto. No caso trata-se de uma citação da primeira Carta de Pedro 1,25 conferindo com Is 40,8: “A Palavra do Senhor permanece eternamente. Esta é a palavra do Evangelho que vos foi anunciada” (1Pd 1,25) e “A erva seca, murcha a flor, mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre” (Is 40,8).

1.2.      Síntese geral da “VD”

Além de uma Introdução bastante longa e de uma Conclusão, a VD está construída em três partes que seguem uma lógica redacional a partir da Palavra do Senhor.

a)    Na Introdução, logo a partir das duas palavras iniciais, o Papa focaliza a XII Assembleia Geral do Sínodo como “uma experiência profunda de encontro com Cristo, Verbo do Pai, que está presente onde dois ou três se encontram reunidos em seu nome (cf. Mt 18,20)” e, no parágrafo final apresenta a referência central da VD, sua razão de ser ou seja, apresenta o Prólogo do Evangelho de João (Jo 1,1-18).

b)    Na Primeira Parte, aparece o título geral: “Palavra do Senhor”. Focaliza, então, três pontos-chave: “O Deus que fala”, “A resposta do homem a Deus que fala” e a “Hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja”.

c)    Na Segunda Parte, sob o título “A Palavra na Igreja”, a DV apresenta “A Palavra de Deus e a Igreja”, a “Liturgia, lugar privilegiado da Palavra de Deus” e “A Palavra de Deus na vida eclesial”.

d)    Na Terceira Parte, “A Palavra de Deus no Mundo”, a VD discorre sobre “A Missão da Igreja: anunciar a Palavra de Deus ao mundo”, “Palavra de Deus e o Compromisso no Mundo”, “Palavra de Deus e Culturas” e “Palavra de Deus e Diálogo Inter-Religioso”.

e)    Na Conclusão, o Papa mostra a “Palavra definitiva de Deus”, uma “Nova Evangelização e nova escuta”, “Palavra e a Alegria”, e termina lembrando a pessoa de Maria como “Mãe do Verbo e Mãe da alegria”.

2.   Alguns desdobramentos da VD.

2.1.      Introdução. Durante a leitura de todo o texto, de seu estudo, reflexão e aplicações não se pode perder o seu foco que, como foi dito, está no Prólogo do Evangelho de São João. Ao recordar “a beleza e o fascínio do renovado encontro com o Senhor Jesus que se experimentou nos dias da assembleia sinodal”, aparece uma referência à perfeita alegria que se vivencia ao redescobrir o “encontro pessoal e comunitário com Cristo, Verbo da Vida que se tornou visível”. E prossegue: “Com efeito, participar na vida de Deus, Trindade de Amor, é a alegria completa (cf.1Jo 1,4). E é um dom e dever imprescindível da Igreja comunicar a alegria que deriva do encontro com a Pessoa de Cristo, palavra de Deus presente no meio de nós”. Depois de lembrar o Prólogo do Evangelho de João (Jo 1,1-18,) encerra-se a Introdução:

“Trata-se de um texto admirável, que dá uma síntese de toda a fé cristã. A partir da sua experiência pessoal do encontro e seguimento de Cristo, João, que a tradição identifica com «o discípulo que Jesus amava» (Jo 13, 23; 20, 2; 21, 7.20), «chegou a esta certeza íntima: Jesus é a Sabedoria de Deus encarnada, é a sua Palavra eterna feita homem mortal». Aquele que «viu e acreditou» (Jo 20, 8) nos ajude também a apoiar a cabeça sobre o peito de Cristo (cf. Jo 13, 25), donde brotou sangue e água (cf. Jo 19, 34), símbolos dos Sacramentos da Igreja. Seguindo o exemplo do Apóstolo João e dos outros autores inspirados, deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo para podermos amar cada vez mais a Palavra de Deus”.

2.2.      Primeira parte. Nessa primeira parte, já preparados para ouvir o “Verbum Domini”, a Palavra, somos apresentados ao nosso divino interlocutor: O DEUS QUE FALA. Inicialmente somos lembrados que Deus dialoga com sua criatura: “Deus em diálogo”:

“A novidade da revelação bíblica consiste no fato de Deus Se dar a conhecer no diálogo, que deseja ter conosco.” A Constituição dogmática Dei Verbum tinha exposto essa realidade, reconhecendo que «Deus invisível na riqueza do seu amor fala aos homens como a amigos e convive com eles, para convidá-los e admitir à comunhão com Ele». Mas ainda não teríamos compreendido suficientemente a mensagem do Prólogo de São João, se nos detivéssemos na constatação de que Deus Se comunica amorosamente a nós. Na realidade, o Verbo de Deus, por meio do Qual «tudo começou a existir» (Jo 1, 3) e que Se «fez carne» (Jo 1, 14), é o mesmo que já existia «no princípio» (Jo 1, 1).

Outro ponto significativo para nos introduzir na VD está no 7º parágrafo que trata da “Analogia da Palavra de Deus” mostrando como os “Padres sinodais” referiram-se à expressão “Palavra de Deus”.

“Falou-se, justamente, de uma sinfonia da Palavra, de uma Palavra única que se exprime de diversos modos: «um cântico a diversas vozes». A este propósito, os Padres sinodais falaram de um uso analógico da linguagem humana na referência à Palavra de Deus. Com efeito, se esta expressão, por um lado, diz respeito à comunicação que Deus faz de Si mesmo, por outro assume significados diversos que devem ser atentamente considerados e relacionados entre si, tanto do ponto de vista da reflexão teológica como do uso pastoral. Como nos mostra claramente o Prólogo de João, o Logos indica originariamente o Verbo eterno, ou seja, o Filho unigênito, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e consubstancial a Ele: o Verbo estava junto de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo – afirma São João – «fez-Se carne» (Jo 1, 14); por isso Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, é realmente o Verbo de Deus que Se fez consubstancial a nós. Assim a expressão «Palavra de Deus» acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai feito homem”.

Passando pela “Dimensão cósmica da Palavra”, chega-se à “Criação do homem” e ao “Realismo da Palavra” que lança “um olhar sobre a realidade como obra da Santíssima Trindade, através do Verbo Divino”. Assim, trata a VD da “Cristologia da Palavra” (de maneira particular, aconselho uma leitura bem atenta e demoradamente refletida sobre este parágrafo) afirmando que “A Palavra de Deus impele-nos a mudar o nosso conceito de realismo”, diz a VD que “realista é quem reconhece o fundamento de tudo no Verbo de Deus” . Neste mesmo contexto, fundamentam-se as seguintes belíssimas expressões:

“A partir deste olhar sobre a realidade como obra da Santíssima Trindade, através do Verbo divino, podemos compreender as palavras do autor da Carta aos Hebreus: “Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas, agora falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho, a Quem constituiu herdeiro de tudo e por Quem igualmente criou o mundo” (Hb 1, 1-2)”.

“A tradição patrística e medieval, contemplando esta «Cristologia da Palavra», utilizou uma sugestiva expressão: O Verbo abreviou-Se. «Na sua tradução grega do Antigo Testamento, os Padres da Igreja encontravam uma frase do profeta Isaías – que o próprio São Paulo cita – para mostrar como os caminhos novos de Deus estivessem já preanunciados no Antigo Testamento. Eis a frase: “O Senhor compendiou a sua Palavra, abreviou-a” (Is 10, 23; Rm 9, 28). (…) O próprio Filho é a Palavra, é o Logos: a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez-Se criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós». Desde então a Palavra já não é apenas audível, não possui somente uma voz; agora a Palavra tem um rosto, que por isso mesmo podemos ver: Jesus de Nazaré”.

O subtítulo seguinte, “Dimensão escatológica da Palavra de Deus”, entre outros pontos importantes, contém uma orientação clara sobre supostas revelações divinas particulares. Por isso, transcrevo literalmente o parágrafo :

“De fato, como recordaram os Padres durante o Sínodo, a «especificidade do cristianismo manifesta-se no acontecimento que é Jesus Cristo, ápice da Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o homem e Deus. Ele, “que nos deu a conhecer Deus” (Jo 1, 18), é a Palavra única e definitiva confiada à humanidade». São João da Cruz exprimiu esta verdade de modo admirável: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (…). Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade». Consequentemente, o Sínodo recomendou que «se ajudasse os fiéis a bem distinguir a Palavra de Deus das revelações privadas», cujo «papel não é (…) “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época histórica». O valor das revelações privadas é essencialmente diverso do da única revelação pública: esta exige a nossa fé; de fato nela, por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja, fala-nos o próprio Deus. O critério da verdade de uma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando aquela nos afasta dEle, certamente não vem do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. A revelação privada é uma ajuda para a fé, e manifesta-se como credível precisamente porque orienta para a única revelação pública. Por isso, a aprovação eclesiástica de uma revelação privada indica essencialmente que a respectiva mensagem não contém nada que contradiga a fé e os bons costumes; é lícito torná-la pública, e os fiéis são autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão. Uma revelação privada pode introduzir novas acentuações, fazer surgir novas formas de piedade ou aprofundar antigas. Pode revestir-se de certo caráter profético (cf. 1 Ts 5, 19-21) e ser uma válida ajuda para compreender e viver melhor o Evangelho na hora atual; por isso não se deve desprezá-la. É uma ajuda, que é oferecida, mas da qual não é obrigatório fazer uso. Em todo o caso, deve tratar-se de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são o caminho permanente da salvação para todos”.

Continuando, ainda sob o título DEUS QUE FALA, a VD apresenta à nossa consideração, alguns outros aspectos do “diálogo divino”: “A Palavra de Deus e o Espírito Santo”; “Tradição e Escritura”; “Sagrada Escritura , inspiração e verdade” e, no final, “Deus Pai, fonte e origem da Palavra”, cujo último parágrafo transcrevo pela sua providencial oportunidade nos barulhentos e agitados tempos modernos:

 “Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Onipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-Lo lamentar: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34; Mt 27, 46). Avançando na obediência até ao último respiro, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: «Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito» (L23, 46). Esta experiência de Jesus é sintomática da situação do homem que, depois de ter escutado e reconhecido a Palavra de Deus, deve confrontar-se também com o seu silêncio. É uma experiência vivida por muitos Santos e místicos, e que ainda hoje faz parte do caminho de muitos fiéis. O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio. Portanto, na dinâmica da revelação cristã, o silêncio aparece como uma expressão importante da Palavra de Deus”.

Termina, assim, a síntese da primeira metade da primeira parte da Verbum Domini.


[1]   Daqui em diante VD

[2]   Além do Sínodo de abrangência universal, cada Bispo em sua Diocese pode convocar um Sínodo com o objetivo de atualizar sua ação evangelizadora à luz das  novas circunstâncias pastorais que estão a exigir novas posturas e novos projetos que otimizem o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo.

MISSÃO E MINISTÉRIOS DOS CRISTÃOS LEIGOS E LEIGAS

Maria Elisa Zanelatto

O Documento 62 da CNBB trata de um “tema vasto e complicado”, como reconhece sua mesma introdução.

Movimento de cristãos leigos por excelência, o MCC sente que esse documento deverá nortear suas opções e sua escolha de prioridades, até porque deixa claros pontos relativos à missão do cristão leigo que o próprio MCC tem enfatizado à saciedade, em suas Assembléias nos vários níveis, em seus Encontros nacionais e internacionais, em seus artigos e publicações.

A síntese que segue não substitui a leitura e o estudo do Documento 62. Ao contrário, pretende incentivar seu aprofundamento e o interesse dos cursilhistas em sua análise. Para facilitar essa busca ulterior, os subtítulos aqui utilizados (às vezes precisamente os mesmos usados no documento), são sempre seguidos das indicações dos números dos parágrafos a que se referem.

Esperamos que a leitura desta síntese desperte nos cursilhistas do Brasil o interesse e a convicção de que, para caminhar com a Igreja, Mãe e Mestra, temos que ser, todos, filhos amorosos e discípulos diligentes. Só assim, no limiar do Terceiro Milênio, estaremos preparados não apenas para festejar o Jubileu do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas para brindar o Mestre com o seu melhor presente de aniversário: o esforço sem tréguas para que o Reino não seja um Plano, um Projeto, mas uma realidade.

Maria Elisa Zanelatto
Grupo Executivo Nacional

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Maria Elisa Zanelatto atua no MCC desde 1970, nos níveis diocesano, nacional e internacional tendo sido vice-coordenadora nacional e secretária do GEN, secretária do OMCC e, por designação do GLCC, por duas vezes integrou a comissão de revisão do livro Ideias Fundamentais.

DESAFIOS E PERSPECTIVAS DE UM DOCUMENTO

J.F. Medeiros, Vice-presidente do CNL

O documento 62 – “Missão e Ministério dos Cristãos Leigos e Leigas” – aprovado na 37ª Assembleia Geral da CNBB, é um instrumento importante, não apenas para os leigos e leigas, mas para toda a Igreja do Brasil, para que possa cumprir – na unidade de todos os seus – a missão “de confessar, anunciar, servir e celebrar o nome do Senhor Jesus Cristo” (l94), caminho de vida e esperança para toda a humanidade.

É verdade que, apesar de construído com a participação de todos os segmentos da Igreja, ele ainda apresenta algumas lacunas e lança alguns desafios que gostaríamos de destacar. Por se tratar de um documento que deve ser refletido, vivenciado e incorporado à prática das comunidades cristãs, essa reflexão levará necessariamente ao seu aperfeiçoamento. Este é certamente um processo dinâmico de construção permanente: a reflexão questiona a prática, gera e motiva novas práticas que irão indicar a necessidade de aperfeiçoar e sistematizar a reflexão.

Nossa primeira observação diz respeito à primeira parte do documento: “Desafios e Sinais dos Tempos”. A nosso ver, além de apresentar uma visão incompleta da realidade, falta uma denúncia mais explícita e corajosa da política neoliberal e da opção por uma “globalização equivocada que vem reduzindo o País de modo acelerado em direção contrária às conquistas sociais que beneficiariam a maioria dos excluídos” (Análise de Conjuntura, 37ª Assembleia Geral da CNBB).

Em segundo lugar, apesar de buscar superar uma visão dicotômica Igreja-mundo, evitando uma definição entre ministério “ad intra” e “ad extra” (90), o documento trata de maneira diferenciada os ministérios exercidos no interior da Igreja e as atividades dos cristãos leigos na sociedade, consideradas como serviço e não como ministério (91). Na verdade, embora se afirme que a missão da Igreja é única e deve ser assumida por todos os seus membros, tanto no mundo quanto no interior da Instituição, essa distinção pode ser compreendida como um reforço ao famoso “aos clérigos, à Igreja aos leigos e ao mundo”. Isso poderia significar que os ministros ordenados teriam sua responsabilidade restrita ao “ad intra”, enquanto os leigos, além de seu serviço à sociedade, ainda assumiram alguns “ministérios”, por concessão da hierarquia.

O documento reconhece que o binômio ‘hierarquia e laicato” ainda continua sendo uma maneira de pensar a estrutura social da Igreja amplamente utilizada (l04). Entretanto, falta ao documento um relato histórico da visão estratificada entre clero e laicato que, a nosso ver, não contrariaria a intenção de destacar no documento sobretudo aquilo que nos une. Muito ao contrário, acreditamos que um olhar sobre essa história, numa perspectiva de perdão e reconciliação – tão oportuna nestes tempos jubilares, poderia contribuir muito para superar essa divisão e possibilitar um diálogo entre todos os setores da Igreja, na busca da unidade.

Finalmente, a Eclesiologia – Igreja Povo de Deus – que o documento valoriza e defende ainda não foi bem absorvida e certamente não é vivenciada pela totalidade da Hierarquia e, por consequência, menos ainda pelo laicato. Ora, a construção da unidade proposta pelo documento passa necessariamente pela superação de quaisquer suspeitas, sobretudo entre clérigos e leigos. Entretanto, o documento não apresenta orientações práticas de como efetivamente trabalhar essas questões.

O grande mérito do documento poderá ser o de suscitar, no seio da Igreja, um debate aberto, fraterno e leal, buscando transformar em realidade o sonho de uma Igreja fiel à Trindade, servidora do Evangelho, companheira da caminhada, misericordiosa, missionária, dialógica e toda ministerial (195).

in Circular do CNL nº 15/99

NÚCLEO DE COMUNIDADE AMBIENTAL – NCA

Maria Elisa Zanelatto

 I.     HISTÓRICO

II.      

A.    Finalidade do MCC

    1. O MCC, como todos sabem, tem uma finalidade que pode ser dividida em três, conforme o “prazo” em que deve ser atingida:
  • finalidade imediata – possibilitar a vivência e a convivência do fundamental cristão,
  • finalidade mediata – criar núcleos de cristãos,
  • finalidade última – fermentar de Evangelho os ambientes.
    1. Como fica claro, a finalidade imediata é a que se quer atingir logo após o cursilho e a finalidade última é a que se quer atingir como resultado concreto, que mostre os frutos do MCC. Quando as pessoas aceitam a palavra e a pessoa de Jesus Cristo e passam a viver conforme os seus critérios, temos cristãos vivendo e convivendo o fundamental cristão. E quando essa vivência e convivência do fundamental cristão produz frutos, passamos a ter ambientes e estruturas cristãs.
    2. É a finalidade mediata (a que está no meio), entretanto, que possibilita que, atingindo a imediata, os cristãos que passaram pelo cursilho atinjam também a última. Porque não se pode fermentar o ambiente e “pelo influxo do Evangelho, transformá-lo a partir de dentro” como pede a Evangelii Nuntiandi (18), se não houver, nesses ambientes, cristãos que atuem através de sua palavra e do seu testemunho.

C.     Meios de perseverança

  1. O MCC sempre se preocupou em oferecer a quem saísse do cursilho um modelo de comunidade para perseverar na fé e aprofundar a conversão, principalmente se o neo-cursilhista não pertencesse ainda a nenhuma outra comunidade.
  2. O modelo inicial oferecido – e que em muitos lugares do mundo ainda é considerado válido e suficiente – era a chamada Reunião de Grupo.
  3. Não vamos nos deter em explicar o que era a RG. Apenas reconhecer que, no Brasil, como em outros países, ela foi, aos poucos, deixando de funcionar como “plataforma de lançamento dos cristãos nos ambientes e no mundo”. De fato, as pessoas acabavam se reunindo para ler o Evangelho, tirar uma mensagem, contar uns aos outros qual tinha sido o seu “momento mais próximo de Deus” naquela semana, planejar sua ação apostólica (curso de batismo, de noivos, etc.) e… tomar um cafezinho.
  4. Por mais que isso ajudasse a santificação individual, a análise da realidade mostrava que se faziam muitos cursilhos, havia muitas reuniões de grupo, mas o fermento do Evangelho pouco atingia os ambientes!

D.     Uma nova proposta

  1. Em 1980, em Santo Domingo, realizou-se o V Encontro Interamericano do MCC, cujo tema foi a repercussão do Documento de Puebla no Movimento.
  2. Nesse encontro, os delegados reconheceram que a RG não era tão eficaz como se pretendia fazer crer e se propuseram a buscar novos caminhos para que o pós-cursilho atingisse seus objetivos. Assim, fizeram propostas concretas, baseados, aliás, em trabalho apresentado pelo Brasil, para melhorar todo o pós-cursilho: desde o núcleo de coordenação, passando pelos Grupos, pelas Ultreias e pela própria Escola.
  3. Como nosso assunto são os “núcleos de comunidades ambientais”, vamos nos deter apenas neste ponto entre os inúmeros propostos pelo V Encontro Interamericano.

E.     Caraterísticas

  1. Em 1980, em Santo Domingo
    1. Quando se apresentou a proposta no V EIA, os núcleos de comunidades ambientais eram, podemos dizer, uma espécie de sonho aqui no Brasil.
    2. Mesmo que houvesse mais teoria que prática, os núcleos já tinham algumas características bem definidas:
      • deveriam ter um significado e uma realidade mais próximos da práxis de uma comunidade;
      • não seriam grupos “soltos”, mas inseridos numa planificação global do pós-cursilho;
      • deveriam ser formados por pessoas com afinidade ambiental;
      • deveriam despertar seus componentes para a necessidade de:
        • ¨     formação de uma consciência crítica,
        • ¨     ênfase numa pedagogia ativa, a partir da vida (formação na ação),
        • ¨     formação sistemática nos fundamentos da fé e no ensino social da Igreja (Escola);
      • deveriam usar, como técnica para a formação dessa consciência crítica, a pesquisa programada da realidade ou do grupo social a ser evangelizado;
      • deveriam utilizar, como técnica da pedagogia ativa, a revisão apostólica e a revisão de vida.
  1. Em 1988, em Caracas
    1. Quando se realizou o IV Encontro Mundial, o Brasil apresentou um tema acerca de caminhos novos para ajudar as pessoas que fazem cursilho a amadurecer na fé, inserir-se na comunidade eclesial, assumir seu compromisso apostólico.
    2. Mais uma vez, o Brasil apontou os núcleos de comunidades ambientais como um caminho coerente e seguro para que o cursilhista pudesse vir a ser Igreja, agir concretamente e cumprir, em comunidade, a missão evangelizadora da Igreja.
    3. Naquela altura, o Brasil podia mostrar que, em oito anos, os NCA haviam-se tornado uma realidade e seus frutos eram visíveis.
    4. Dessa vez, algumas das características enfatizadas foram;
      • os núcleos são algo dinâmico e pretendem encarnar os valores do Evangelho, não só na vida pessoal de cada um de seus membros, mas na realidade terrestre (o núcleo é uma comunidade eclesial, imersa na realidade);
      • estão inseridos numa comunidade humana natural: familiar, geográfica, profissional (fábrica), no sindicato, na associação de classe, na escola, no hospital, na repartição pública, no partido político;
      • como estão no ambiente, conseguem atingir e transformar as estruturas e colaboram na evangelização da cultura (nem sempre o núcleo é visível no ambiente; sua presença é uma presença de fermento, sal e luz);
      • sua missão é a missão de Jesus e da Igreja:
        • ¨     levar a Boa Nova da salvação e da libertação aos homens, seus irmãos,
        • ¨     para que seu ambiente seja marcado pelos sinais do Reino (justiça, amor, solidariedade, fraternidade),
        • ¨     partilhando o ser e o ter,
        • ¨     buscando a dignidade, a liberdade, os direitos fundamentais das pessoas com as quais convive.
  1. Em 1999, no Brasil
    1. O VI Encontro Nacional do MCC, em Guarapari, ao debruçar-se sobre as perspectivas do MCC no Terceiro Milênio, retomou a questão dos ‘núcleos’ para comparar seu dinamismo às características mais estáticas do ‘grupo’.
    2. Para explicitar isso, lançou mão de um trabalho preparado em Salvador, BA, que relacionava, em forma de gráfico, os onze itens que seguem:

1º.  Partir do fato da vida para a Palavra vs. partir da Palavra para o fato da vida

O grupo se reúne, lê a palavra de Deus e tira lições para a vida e para o próprio comportamento: quando estiver no meu ambiente, em tais e quais circunstâncias, vou poder aplicar esta lição… O núcleo parte da vida e chega à Palavra. À medida que procuramos encarnar a Palavra aqui ou ali, nos interrogamos sobre o que Deus está querendo nos dizer. É a vida que vivo no meu ambiente e as dores e alegrias dessa vida que me levam a procurar na Palavra a mensagem transformadora para esse ambiente, para essas dores.

2º.  Situações comuns às pessoas do núcleo vs. situações pessoais

No grupo tradicional predominam as situações pessoais: cada um conta seus problemas e o grupo vai ajudar na solução dos mesmos. No núcleo, as situações são comuns aos integrantes do mesmo, que estão vivendo a mesma realidade, os mesmos problemas, a mesma situação concreta naquele ambiente.

3º.  Agir comunitário vs. agir individual

No grupo tradicional predomina o agir individual, ou seja, cada membro do grupo vai fazer alguma coisa diferente: assistir aos menores, aos idosos do asilo, aos doentes nos hospitais, etc. No núcleo, o agir é comunitário. Se seus integrantes estão no ambiente do hospital, da saúde, da educação, é lá, na realidade do dia-a-dia, que vai-se desenvolver a ação de todos os integrantes.

4º.  Ir à raiz dos fatos vs. ficar na superfície dos fatos

No grupo, fica-se na superfície dos fatos, que são analisados de fora, a partir do conhecimento, da informação ou da vivência. O núcleo, ao contrário, vai à raiz dos fatos, não procurando apenas sanar as situações de emergência. O grupo, pois, resume-se às obras de misericórdia – as quais, diga-se, são fundamentais na vida da Igreja e no anúncio do Reino. O núcleo, porém, vai, sim, dar comida a quem tem fome, mas vai também às causas da pobreza. Ao mesmo tempo que anuncia os critérios evangélicos para mudar essas causas, o núcleo as denuncia com vigor e coragem. 

5º.  Conversão pessoal e social concomitantes vs. primeiro conversão pessoal, depois conversão social

A conversão é sempre pessoal e social ao mesmo tempo. Em contato com a realidade, a pessoa vai mudando… É por isso que chegamos a ouvir, de vez em quando, frases ousadas como “tal Bispo se converteu”. É porque esse bispo, quando era padre, estava num lugar, tinha uma visão de mundo. Ao assumir o pastoreio de uma Diocese, ele mudou a sua postura porque começou a sujar as mãos com a realidade, começou a perceber, por experiência pessoal, o que efetivamente acontecia. 

6º.  O ambiente questiona o núcleo e vice-versa vs. o grupo questiona o ambiente

O grupo limita-se a questionar o ambiente a partir de fora (a TV não presta, por exemplo) para depois pensar em consertá-lo… O núcleo se deixa questionar e provocar pelo ambiente: por que é assim a realidade do hospital onde eu trabalho? É claro que, ao mesmo tempo, o núcleo questiona o ambiente, mas ele tem mais facilidade para transformar a realidade à maneira de fermento. Aí está a grande diferença.

7º.  Leitura da Bíblia, dos documentos da Igreja, e estudo da doutrina social vs. predomínio da leitura da bíblia
No grupo predomina a leitura da Bíblia. O núcleo, além da leitura da Bíblia, estuda os documentos da Igreja e sua doutrina social, até como resposta à pressão feita pelo próprio ambiente.

8º.  Mudanças das estruturas do mundo do trabalho, da política, etc. vs. predomínio das obras de misericórdia 
Enquanto o grupo ocupa-se praticamente apenas das obras de misericórdia – fundamentais, repetimos, e sem as quais ninguém se salva (Mt 25, 34ss) – o núcleo busca a mudança nas estruturas no mundo do trabalho, da política, buscando erradicar as causas que produzem tantos famintos, nus e excluídos.

9º.  Reunião mais objetiva vs. reunião mais subjetiva

No grupo a reunião é mais subjetiva, voltada para conversão individual; no núcleo ela é mais objetiva, porque está-se estudando e participando de algo que está “fora” dos integrantes e que eles têm que mudar e transformar.

10º.      Fermento que penetra na massa vs. fermento que fermenta fermento    

No grupo o fermento atua dentro do próprio grupo que almeja seu crescimento pessoal, enquanto o núcleo leva o fermento para a massa.

11º.      Espiritualidade de encarnação, de fronteira vs. espiritualidade intimista

No grupo a espiritualidade é intimista, fruto da conversão predominantemente pessoal; no núcleo essa espiritualidade é de fronteira, porque é uma espiritualidade de encarnação.

    1. Como que para imprimir ao núcleo o selo de comunhão, o Documento 62, fruto da 37ª Assembleia Geral da CNBB, realizada em abril de 1999, fala na “animação de pequenas comunidades” (159). Ora, o núcleo de cristãos é, precisamente, uma “pequena comunidade” que pretende, a modo de fermento, colaborar para a “transformação da sociedade”, o que, segundo o mesmo documento, só é possível com a “transformação das estruturas de poder hoje existentes” (132).

III.     PRÁTICA

 A.     Esclarecendo

No momento de criar um núcleo, os cristãos sentem certas dificuldades… Vamos procurar esclarecer algumas, respondendo às perguntas mais comuns.

  1. Em quais ambientes se pode formar um NCA?
    De preferência em ambientes extra-eclesiais: família, profissão, associações de classe, de bairro, etc.
  2. Quem compõe o NCA?
    Cristãos – cursilhistas ou não; dependendo do caso, até não-católicos.
  3. Que tipo de compromisso orienta o NCA?
    O compromisso de seus membros com o batismo, com a Igreja, com as opções pastorais da Igreja no Brasil e na Diocese.
  4. Qual a vocação dos membros do NCA?
    Sua vocação é ser sal, fermento e luz, para tornar o ambiente mais cristão, mais marcado pelos valores do Evangelho e pelos critérios de Jesus Cristo.
  5. Os NCA são necessários aos ambientes?
    São, porque a maioria dos ambientes – senão todos – se caracterizam pelos critérios do mundo consumista e massificante; critérios que dão origem ao desamor ao ódio, à violência, à injustiça, à marginalização, à luta de classes.
  6. Qual a ação que se espera dos NCA nos ambientes?
    Espera-se uma ação transformadora, o que exige pessoas que assumem sua tarefa corajosamente (às vezes silenciosamente), e exercem sua função de fermento: pessoas que decidem, participam e assumem mais os riscos do que as glórias de ser cristão.
  7. Como os membros do grupo vão “crescer”? Afinal é preciso transformar os “homens em cristãos para que eles transformem cristãmente as estruturas” não?
    Precisamente em sua ação fermentadora, porque Puebla mostra que, para viver sua espiritualidade, o leigo não deve fugir da realidade temporal, mas buscar aí a presença do Senhor.
  8. Basta isso?
    Claro que não”: a palavra de Deus, a oração pessoal e comunitária, os Sacramentos, os ajudarão a iluminar a realidade para transformá-la.
  9. Quando e onde o núcleo se reúne?
    A frequência da reunião deve ser determinada pelo grupo. De preferência, não deve-se reunir no local de trabalho, quando isso puder marcá-lo ou torná-lo alvo da antipatia dos demais.
  10. O que é mais importante: o núcleo ou a reunião?
    A reunião é necessária, mas o núcleo é mais importante que a reunião. Como o Evangelho desinstala e incomoda, é a presença-testemunho, a presença-fermento, a presença-incômodo do grupo que levará à transformação.
  11. Os NCA devem usar algum método de trabalho especial?
    O método de trabalho do NCA deve ser aquele que a Igreja vem usando: o VER-JULGAR-AGIR-AVALIAR.
  12. Os membros do NCA só atuam no ambiente, ou também na paróquia?
    O NCA vai, como já dissemos, alimentar-se na comunidade eclesial. Por isso, dependendo da disponibilidade e da vocação de cada um, os membros do NCA poderão colaborar nas atividades paroquiais. Não se pode esquecer, porém, que a vocação do leigo é ser presença da Igreja no mundo; atuar especificamente na Igreja é resposta a uma convocação

B.     Algumas definições e alguns conceitos

  1. Podemos definir o NCA como “um grupo de cristãos com capacidade de liderança, pertencentes a um mesmo ambiente e que, conscientes de sua responsabilidade de transformar cristãmente o mundo, juntam-se para VER-JULGAR-AGIR-AVALIAR a conquista do seu ambiente”.
  2. Convém esclarecer alguns conceitos que, ou entram na definição, ou com ela se relacionam:
    1. homem – pessoa, princípio, sujeito e fim de todas as instituições sociais.
    2. ambiente – conjunto de circunstâncias nas quais o homem vive e se realiza.
    3. instituição – instrumento de controle social próprio de uma cultura (universidade, empresa, fábrica, hospital).
    4. estrutura – forma que toma a organização interna de um determinado grupo social (Ministério da Educação, Banco Central, uma Diocese).
    5. sistema – conjunto de princípios, normas e procedimentos que regulam as estruturas (capitalismo, marxismo, comunismo, socialismo).
  3. É importante não confundir os conceitos…
    1. A instituição ou a estrutura é uma situação estável onde os homens se relacionam funcionalmente, para realizar um trabalho e conseguir um objetivo.
      O homem pode estar numa instituição ou estrutura:
      • pela força: o prisioneiro, no cárcere;
      • pela remuneração: o empregado, na empresa;
      • pela conveniência: numa empresa comercial e não industrial.
    1. Pode ser que numa instituição ou estrutura, as pessoas se relacionem de modo a compartilhar certos valores e desvalores que influenciam seu modo de agir e de pensar: essa situação é um ambiente.
    2. Conclusão: o sistema regula a estrutura das instituições, em cujos ambientes se movem os homens. O homens podem modificar os ambientes de modo a atingir progressivamente as estruturas e as instituições, chegando a questionar os sistemas que as regulam…
  • A perestroika permitiu que os homens que se moviam nos diversos ambientes das estruturas e instituições soviéticas, viessem a questionar os sistema comunista que a originou e controlou durante décadas.
  • Os cristãos, ao se reunirem em NCA, nos ambientes de uma determinada estrutura (uma empresa, por exemplo), podem chegar a questionar o sistema – no nosso caso o capitalista neoliberal – que a ampara e produz injustiça.
  • Fica claro, pois, que a ação do NCA tem uma amplitude considerável e leva, necessariamente, a uma abertura, a uma tomada de posição, a um assumir de compromisso em nível social, político, etc.

C.     O núcleo inicial e sua ampliação:

  1. Um núcleo pequeno de cursilhistas, ao descobrir sua vocação de “fermentar evangelicamente seu ambiente”, vai perceber que, para transformá-lo, precisa buscar outras pessoas (não só cursilhistas) com as quais compartilhe ideias, valores, atitudes e que, além disso, também manifestem inquietude em relação ao mundo que as rodeia.
  2. Esse núcleo pequeno vai, pois, como todo grupo humano, crescer, amadurecer e compactar-se. O processo de crescimento desse núcleo poderá ser observado em três passos.
    1. detectar – o núcleo inicial de cursilhistas detectará em seu ambiente concreto as pessoas que possuam as qualidades mencionadas acima (item 1);
    2. motivar – o núcleo inicial colocará para essas pessoas suas próprias inquietudes, a fim de melhorar, entre todos, o nível de vida integral no seu ambiente;
    3. atuar – à medida que o núcleo vai-se formando e mentalizando, deverá atuar de tal forma que os valores do Evangelho passem a impregnar o ambiente e a transformá-lo.
  3. Para que isso aconteça, os membros daquele núcleo inicial precisam:
    1. estar profundamente convencidos de sua responsabilidade cristã de transformar o ambiente e de que o núcleo ambiental é o meio para consegui-lo;
    2. ter decidido comprometer-se seriamente a transformar cristãmente seu ambiente através de um NCA;
    3. buscar apoio na palavra de Deus, na orações, nos Sacramentos e na comunidade.

D.     Estratégia da formação do NCA

  1. É preciso detectar líderes. Para isso, é bom saber com clareza o que é líder e saber diferenciá-lo do caudilho ou, da pessoa que ocupa um cargo diretivo.
    1. o caudilho impõe autoridade, infunde medo e temor, exige obediência, ordena com violência decide tudo ele mesmo; é dominante e impositivo, utiliza sempre o “eu” e se faz servir pelos demais…
    2. o líder ganha a cooperação, infunde respeito, influi com suavidade e firmeza, delega responsabilidade; utiliza o “nós”, é compreensivo, sugere e é o que mais serve.
  2. Como buscar o líder?
    1. auscultar o ambiente e investigar de onde provêm as ideias, os valores e as atitudes que caracterizam o ambiente e quais são as pessoas que as promovem;
    2. diagnosticar os líderes de quem convém acercar-se e conquistar para a causa do Evangelho;
    3. começar a tratar a pessoa detectada como líder positivo;
    4. pelo tato, consegue-se conhecer a pessoa e descobrir suas inquietudes, valores, atitudes, desejos, etc.;
    5. quando se tiver conseguido sua amizade, pode-se propor a ela nosso ideal, com esperança de êxito.
  3. Como motivar as pessoas?
    1. oferecendo um testemunho de vida que as convença e atraia: de responsabilidade, preocupação pelos demais, honradez, autenticidade, sinceridade, espírito de serviço, etc.;
    2. apresentar com convicção as próprias inquietudes e comunicar o que se está fazendo para melhorar a ambiente;
    3. pedir colaboração ou ajuda para elaborar um plano de ação a fim de trabalhar juntos na transformação ambiental.
  4. Como atuarprogressivamente?
    Elaborar um plano de ação com base no método VER/JULGAR/AGIR/AVALIAR. em função do ambiente concreto.
    1. VER – observar e analisar:
  • as ideias predominantes,
  • os valores que subjazem no comportamento das pessoas,
  • as atitudes que se manifestam mais frequentemente,
  • os critérios segundo o quais se tomam decisões,
  • os problemas que afetam mais a maioria,
  • as aspirações, inquietudes, temores e angústias das pessoas,
  • a vontade de mudança,
  • as tentativas de rebeldia, etc.
    1. JULGAR – confrontar a realidade observada:
  • com os valores humanos da pessoa,
  • com os valores cristãos,
  • com os direitos inalienáveis: vida, liberdade, destino de auto-realização, o bem comum e os meios para consegui-lo (verdade, justiça, amor, paz, etc.).

Analisar as causas dos contrastes entre o que é (VER) e o que deve ser (JULGAR).

    1. AGIR – Traçar um plano geral de trabalho, no qual figure um modelo ao qual se quer chegar e algumas metas concretas que poderiam ser, por exemplo:
  • melhorar as condições de vida humana (salário justo, condições de higiene e salubridade, seguro social, horário de trabalho e descanso, etc.);
  • despertar o sentido de solidariedade, entre as pessoas do ambiente, preocupando-se com os problemas dos demais, compartilhando as angústias e alegrias dos companheiros, etc.;
  • à medida que se conseguirem resultados positivos, suscitar, individual ou grupalmente, a necessidade dos valores evangélicos como o caminho para conseguir que os homens vivam felizes;
  • à medida que surgem certas perguntas de fundo, anunciar explicitamente a pessoa de Cristo e sua mensagem libertadora; suscitar a necessidade de uma formação humana e de uma crescente espiritualidade laical;
  • daí em diante, a criatividade do núcleo que já está motivado com critérios cristãos o fará descobrir nova ações para transformar o ambiente.
    1. AVALIAR – Refletir periodicamente sobre o processo que está sendo seguido no cumprimento do plano proposto, para verificar os resultados e as causas dos êxitos ou fracassos.

 

Fontes de consulta:

Conclusões do V Encontro Interamericano, Santo Domingo 1980

Trabalho do Brasil sobre “Caminhos Novos”, IV Encontro Mundial Caracas, 1988

Entrevista do Pe. José Gilberto Beraldo, publicada no Boletim Alavanca

Grupos ambientales del MCC, Secretariado Nacional de Assunção, Paraguai, 1986

VI Encontro Nacional do MCC do Brasil, 1999

Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas, Doc. 62, CNBB

 

Maria Elisa Zanelatto atua no MCC desde 1970, nos níveis diocesano, nacional e internacional tendo sido vice-coordenadora nacional e secretária do GEN, secretária do OMCC e, por designação do GLCC, por duas vezes integrou a comissão de revisão do livro Ideias Fundamentais.