Cartas Mensais

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CARTA MCC BRASIL – FEV 2018 – 222ª.

Caríssimos irmãos e irmãs, companheiros de jornada na proclamação da Boa Notícia do Reino, com todos vocês estejam a paz e alegria anunciadas e vividas por nosso Senhor Jesus Cristo:

Introdução.  A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – proclamou o ano de 2018 como o Ano do Laicato, “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino” e o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo”, Mt 5,13-14. Nasce essa proposta não só da oportunidade, mas, sobretudo, da urgente necessidade da Igreja no Brasil como da Igreja de todo o mundo, de lembrar a verdadeira missão dos leigos e leigas. Aliás, não é de agora que a CNBB elabora e publica documentos e orientações pastorais enfatizando o lugar e a missão do laicato no anúncio da Boa Notícia do Evangelho nas realidades sociais e nos ambientes em que está naturalmente presente. Entretanto, apesar dessa insistência, tem-se a impressão de que o papa Paulo VI na sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi “Sobre a Evangelização no Mundo Contemporâneo”, publicada em dezembro de 1975, soa como “a voz que clama no deserto”… Por isso, mais uma vez, para lhes facilitar o acesso, ouso transcrever, sob pena de ser repetitivo – mas querendo afirmar que esta carta dispensaria outras ulteriores considerações sobre o novo documento da CNBB e insistindo junto aos meus caros leitores e leitoras – o parágrafo 70 daquela preciosa Exortação:

“Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as mais variadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, atuar uma singular forma de evangelização. A sua primeira e imediata tarefa não é a instituição e o desenvolvimento da comunidade eclesial, esse é o papel específico dos Pastores, mas sim, o pôr em prática todas as possibilidades cristãs e evangélicas escondidas, mas já presentes e operantes, nas coisas do mundo. O campo próprio da sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos “mass media” e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento. Quanto mais leigos houver impregnados do Evangelho, responsáveis em relação a tais realidades e comprometidos claramente nas mesmas, competentes para as promover e conscientes de que é necessário fazer desabrochar a sua capacidade cristã muitas vezes escondida e asfixiada, tanto mais essas realidades, sem nada perder ou sacrificar do próprio coeficiente humano, mas patenteando uma dimensão transcendente para o além, não raro desconhecida, se virão a encontrar ao serviço da edificação do reino de Deus e, por conseguinte, da salvação em Jesus Cristo” (EN 70)..

 

1. Antes do Concílio Vaticano II (1961-1965).  Passadas as sangrentas perseguições aos cristãos dos primeiros dois séculos depois de Jesus, Constantino Magno (302 DC), convertido ao cristianismo por influência de sua mãe Helena, pelo Édito de Milão, declara não só a liberdade religiosa como o Cristianismo a religião oficial do Império Romano. Nasce, então, a “Cristandade”, isto é, uma Igreja unida ao Estado em que este tem domínio sobre aquela. Não é pretensão resumir, neste breve espaço, as consequências disso, tanto para a posição da hierarquia eclesiástica como para o laicato. Consequências essas que, passadas pelo Concílio de Trento (1545-1563), perduraram, praticamente, até o Concílio Vaticano II (1962-1965) e que podem, de certa forma, ser sintetizadas na afirmação do Papa S. Pio X, em sua Encíclica “Vehementer nos” de fevereiro de 1906: “Daí resulta que essa Igreja é por essência uma sociedade desigual, isto é, uma sociedade que abrange duas categorias de pessoas, os Pastores e o rebanho, os que ocupam uma posição nos diferentes graus da hierarquia, e a multidão dos fiéis. E essas categorias são tão distintas entre si, que só no corpo pastoral residem o direito e autoridade necessária para promover e dirigir todos os membros ao fim da sociedade; quanto à multidão, essa não tem outro dever senão o de se deixar conduzir e, rebanho dócil, seguir os seus Pastores” (n° 22). Nada mais a acrescentar sobre o que tal declaração significou e, infelizmente, ainda significa para muitos fieis católicos, para padres e até bispos, o laicato na Igreja…

 

2. Uma nova brisa sopra na Igreja. Somado aos mais atuais documentos do magistério eclesiástico sobre a vocação e missão do leigo e da leiga na missão evangelizadora da Igreja, a presente convocação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é parte relevante dessa nova brisa que sopra na Igreja. As orientações pastorais e o extraordinário testemunho pessoal do papa Francisco vêm iluminando o nosso seguimento no caminho de Jesus no presente e no futuro. Inspiradas são as referências feitas insistentemente por ele ao “clericalismo”… Aqui não posso deixar de lembrar a sua profética Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, A Alegria do Evangelho, que é um novo e promissor horizonte mostrado pelo papa para uma Nova Evangelização.

3. O “Ano do Laicato” e os Movimentos eclesiais na Igreja do Brasil. Chegou a hora decisiva para todos os Movimentos da Igreja: assumirem o compromisso concreto de uma “Igreja em saída”, vivendo seu carisma através de seus métodos, seus planos, sua concretização. Basta de teorias e de projetos visando tão somente à expansão do seu próprio “movimento”! Basta de reuniões que servem apenas, em muitos casos, para marcar outra reunião! Ou para organizar um suculento almoço ou jantar ou, pior, para “tomar um cafezinho”! Sobretudo num mundo de anonimato ou de indiferença, devemos reconhecer que tudo isso é necessário para estreitar amizades, multiplicar informações e iniciativas evangelizadoras. Mas jamais em detrimento da concretização do seu carisma. Ao lembrar o Movimento de Cursilhos, é oportuno enfatizar o seu carisma contido nas palavras que o definem desde 1968: … “criando núcleos de cristãos que fermentem de evangelho os seus ambientes”! Precisa-se mais? Aliás, concluo com um apelo do Documento 62 da CNBB, em seu n° 121: “…Devemos continuar o nosso esforço de estimular a formação de comunidades menores ou de grupos, que facilitem um relacionamento direto e pessoal… Porém, grupos ou comunidades ambientais (trabalhadores de uma empresa, profissionais da saúde, professores…) podem constituir válida experiência eclesial e contribuir para a transformação das estruturas sociais”.

Traduzindo em miúdos: se o MCC não trabalha para concretizar o seu carisma – suscitar “pequenas comunidades de fé para fermentar (ser sal, fermento e luz…) de Evangelho (justiça, perdão, solidariedade, abertura para o outro, etc.) os ambientes (familiar, profissional, social)” conviria ou repensar a sua definição ou esperar pelo seu desaparecimento do cenário eclesial! E que não se confunda a finalidade última do MCC – acima descrita – com “fazer reuniões” nos ambientes de trabalho! As reuniões em geral e por prudência, feitas fora dos ambientes são para VER e JULGAR, precisamente para que, no ambiente, seja possível AGIR! Fundamental é o NÚCLEO de pessoas – não importando a crença de cada um – com os mesmos ideais evangélicos de justiça, solidariedade, perdão, etc.. Ou seja, com os mesmos valores do Reino de Deus!

Concluo: meus irmãos e irmãs, peregrinos que caminhamos juntos na tarefa de anunciar o Reino, de ser Sal, Luz e Fermento, LEIGOS e LEIGAS do Povo de Deus, discípulos missionários de Jesus, vamos todos a “outros lugares, nas aldeias das redondezas, a fim de que lá também, eu proclame a Boa Nova, pois foi para isto que eu saí” (Mc 1, 38). “Outros lugares e aldeias da redondeza” lá onde, hoje, se encontram nossas famílias, nosso trabalho, nosso círculo de relações, nossas amizades e nossas inimizades, nossas virtudes e, também, nossos pecados! Enfim, é o mundo que nos espera para que a Boa Notícia chegue a todos!

E que Maria, a primeira leiga do Reino de Deus, abra seus braços para acolher e acompanhar vocês aí pelas “aldeias”! Com meu carinhoso abraço, esperando que possam rezar integralmente a belíssima Oração a Maria composta pelo Papa São João Paulo II no final da Christifideles Laici, permitam-me oferecer-lhes dela apenas uma das invocações: “Virgem corajosa, inspira-nos força de ânimo e confiança em Deus, para que saibamos vencer todos os obstáculos que encontramos no cumprimento da nossa missão. Ensina-nos a tratar as realidades do mundo com vivo sentido de responsabilidade cristã e na alegre esperança da vinda do Reino de Deus, dos novos céus e da nova terra”!

Pe. José Gilberto BERALDO

Equipe Sacerdotal do GEN

MCC do Brasil

CARTA MCC BRASIL – JAN 2018 – 221ª.

Meus caríssimos leitores e leitoras, peregrinos como eu rumo à Pátria definitiva. Saúdo a todos no início desta nova etapa de nossa jornada, desejando-lhes que o ano de 2018 transcorra nutrido pelas copiosas bênçãos do Pai misericordioso, na intimidade do Filho muito amado e sob a inspiração do Espírito Santo!

Introdução. Para começar, algumas perguntas que poderiam ser intrigantes. Por exemplo: por que uma citação do livro do Apocalipse, se estamos começando um novo ano? Ou, que relação poderíamos encontrar entre a esperança de um tempo novo e as desilusões, os desacertos, os desvios ou os descaminhos da humanidade durante o ano que passou? Ou, ainda: no contexto de uma sociedade “líquida”[1], isto é, onde estão ausentes até os valores fundamentais da pessoa, da cultura e da própria religião , será ainda possível pensar em valores referentes à própria dignidade humana? E mais: no caso dos seguidores de Jesus, como, assumir pela fé o caminho de Jesus em tais momentos históricos: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (cf Jo 14,6)?

Em alguns breves pontos alimentados pelo texto acima do Apocalipse de São João, aqui vai uma proposta de reflexão sobre o ano que está tendo seu início.

 

1. Por que o Apocalipse? Apocalipse, expressão grega, significa revelação. Uma revelação de difícil interpretação, tão distantes vivemos dos tempos em que foi escrito, das circunstâncias persecutórias em que viviam as primeiras comunidades cristãs alentadas unicamente, pela esperança de uma próxima segunda vinda de Jesus. O apóstolo João Evangelista, exilado na ilha de Patmos, vivendo na pele as agruras da perseguição, mas, sempre alimentando aquela esperança no Senhor Jesus que viria em breve, escreve no livro do Apocalipse as últimas revelações de Deus no Novo Testamento. Depois dessas, todas as demais supostas “revelações” ou “aparições”, sejam quais e de quem forem (sobretudo, se não levarem ao essencial que é Jesus misericordioso), permanecem sujeitas ao discernimento humano do magistério eclesiástico iluminado pela divina Sabedoria.

2. O Apocalipse e o passado na história e na Igreja.

2.1. O passado na história. Olhamos para trás: para os horizontes da humanidade; para os acontecimentos planetários, territoriais, nacionais, sociais, religiosos e, também, pessoais. Voltamos os olhos e tentamos recordar alguns fatos de nossa vida no ano que se foi. Fatos que nos trouxeram alegrias ou que provocaram, quem sabe, um mar de lágrimas de tristeza e de precupação… Agora, tudo passou: “Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe…”. Por outro lado, podemos concordar que não é tão simples “deixar passar”, deixar cair no esquecimento ou como que passar uma borracha sobre acontecimentos, ainda que uma coisa seja o tempo, outra o espaço. Mas, sem dúvida, hão de ter deixado saudosos rastros as muitas coisas boas, os acontecimentos agradáveis, as alegrias de um encontro, uma doença superada, a feliz convivência familiar, a volta de um ente querido e as esperanças de uma nova humanidade, esperanças essas nutridas pela fé daqueles e daquelas que optaram por seguir o caminho de Jesus!

2.1. O passado na Igreja, Povo de Deus. Ao rever a caminhada do Povo de Deus durante o ano que se foi, podemos concluir que muito se avançou no anúncio e na vivência do Reino de Deus. Apesar de todos os obstáculos, sejam, os naturais, sejam os forjados pela injustiça, pela malicia, pelo ódio, pela rejeição ou, pior, pela indiferença de muitos, continuamos nessa missão confiada por Jesus à sua Igreja. Mais numa vez nos convencemos da imensidão da messe e da precariedade dos poucos operários. Mas, a graça de Deus e, com certeza, a assistência e a força do Espírito Santo, nos ajudaram a palmilhar, com alegria e determinação, o caminho de Jesus. Ainda mais, fomos animados pelo testemunho do nosso Pastor, o papa Francisco que, apesar de todas as incompreensões e, até, maliciosas críticas internas de alguns membros da Igreja, enfrenta corajosamente os desafios de uma Nova Evangelização e de uma Igreja “em saída”!

3. O Apocalípse no início de um novo tempo para a Igreja. E o Apocalipse agora, ao iniciarmos um tempo no tempo da Igreja de Jesus? Claro, segue sendo a permanente revelação apocalíptica do Reino de Deus para os novos tempos. Revelação contida na Boa Notícia do Evangelho e alimentada pelas Cartas dos Apóstolos, pelos Sacramentos e pela Tradição viva da Igreja. Iluminados por essa Luz, poderemos estar constantemente abertos ao novo; dispostos a rever continuamente os rumos no caminho de Jesus, certos de que Ele continua nos afirmando: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da Vida” (Jo 8,12). Não posso deixar de lembrar algumas palavras do Papa na EG (A Alegria do Evangelho): “Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual. Na realidade, toda ação evangelizadora autêntica é sempre “nova”.

 

São orientações sábias que nos enchem de esperança e de alegria, características de quem, fortalecido pela Palavra, ouve até com emoção e, por isso, aí vão acentuadas e sublinhadas: “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas antigas passaram’. Aquele que está sentado no trono disse: ‘Eis que faço novas todas as coisas’”.

 

Sugestão para uma reflexão pessoal e/ou do seu grupo: a) como cristão consciente e responsável, seus projetos para o novo ano levam em conta que critérios? Que valores? Os do consumo, da conta bancária, dos bens perecíveis? Ou dos votos superficiais da publicidade: “…muito dinheiro no bolso e saúde prá dar e vender”?; b) você ou seu grupo, participantes de movimentos eclesiais, por exemplo do Movimento de Cursilhos, que compromiso pensam em assumir neste ano dedicado pela Igreja no Brasil ao Leigo e à Leiga? Ou continuamos a olhar para dentro, somente para nossas reuniões, entoando nossos cantos jubilosos e despedindo-nos com aquele cafezinho até a próxima reunião enquanto o mundo e o ambiente que nos cercam estão morrendo de fome de Deus?

Concluo, sob o olhar materno de Nossa Senhora de Guadalupe, Patrona da América Latina, renovando meus votos de um fecundo ano de 2018 e invocando sobre cada um e cada uma de vocês, meus amados, uma das mais sugestivas bênçãos de Deus dadas pelo sacerdote no final de algumas missas do tempo do Advento: “Que durante esta vida Ele vos torne firmes na FÉ, alegres na ESPERANÇA, solícitos na CARIDADE”…

Com carinho, abraço fraterno do amigo, irmão e servidor no Senhor Jesus,

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe Sacerdotal do GEN
(Grupo Executivo Nacional MCC do Brasil)

 


[1] Do sociólogo polonês Zygmund BAUMAN

CARTA MCC BRASIL – DEZ 2017 – 220ª.

Irmãos e irmãs que fielmente nos acompanham durante todo o ano na leitura destas nossas cartas mensais, “graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1Cor 1,3).

No mês de dezembro, claro, pontifica o Natal. São festas… flores… presentes dados e recebidos… Chegou, enfim, a Noite Feliz, “Pois nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz” (Is 9, 6). Nesse dia tudo é novo… tudo é alegria… tudo são canções alusivas ao “Menino que nos foi dado”… tudo nos motiva sob a luz da fé. E, em meio a essa motivação, alguns questionamentos devem nos incomodar e levar-nos a respostas próprias de nossa condição de cristãos…

1. Um Natal que nos interrogue.

Será que para a nossa “sociedade líquida”, isto é, vazia de valores absolutos, exageradamente consumista e perigosamente relativista, é essa a razão de ser de tantas festas, de tantos presentes, de tantos balofos papais-noéis, de tantas árvores de natal, de tantas comemorações? Ou tudo se quedou paganizado, desfigurado ou desconstruído e, por isso, distante da maravilhosa novidade de um novo nascimento do Menino e, ostensivamente, insensível à sua mensagem de paz? Ou distante anos-luz da misteriosa e, ao mesmo tempo, alegre mensagem cantada pelos anjos naquela noite luminosa, continuada pelos séculos afora? Ou daquela mensagem anunciada pelos mesmo anjos aos humildes pastores ainda com “muito medo”: “E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura”? (cf Lc 2, 12).

E, para a nossa Igreja, Povo de Deus já nos alvores do século XXI? Ao celebrar, novamente, aquela noite feliz, portadora da nova Luz para um mundo envolvido nas trevas do distanciamento do Reino, da Palavra transformadora do Pai eternamente pronunciada ou seja, de Jesus que renasce a cada dia e que faz novas todas as coisas, é um renascimento que ela celebra? Pois, lembra-nos o autor da Carta aos Hebreus: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8).

2. Um novo Natal para o Povo de Deus, a Igreja. Para todos nós, que desejamos ser fiéis seguidores dos passos de Jesus, essa data quer significar um renascimento da Igreja, de uma nova maneira de ser Povo de Deus, de um novo Natal. Um Natal que, mesmo sem tantas luzes, tantas árvores luminosas – aliás, muitas delas de plástico – tantos balofos papais-noéis, tantos presentes dados ou recbidos, ou até mesmo tantos presépios, possa estar presente em nossas tão controvertidas realidades. Se o papa Francisco, corajosamente e inspirado pelo Espírito Santo – como, aliás, devemos crer, nós fieis atentos à voz do mesmo Espírito de Deus – vem escancarando as janelas e as portas da Igreja para um tempo novo, essa Igreja não será uma Igreja somente de Francisco, mas será uma Igreja rejuvenescida, anunciadora do Evangelho vivo, uma jovem Igreja proclamadora do Reino de Deus já presente no meio de nós!

 

3. Um novo Natal, uma nova primavera eclesial. Aqui e alí, teólogos, pastoralistas e, mesmo autores não católicos têm-se referido, com frequência, a que estamos presenciando e vivendo uma nova primavera da Igreja. Essa nova primavera teria seu início com o Concílio Vaticano II, encerrado em 1965, e, depois de uma como que hibernação, refloresceria agora com novo vigor, com o papa Francisco. Nesse sentido, poderíamos falar de um novo “nascimento”? Ou, de novo Natal “eclesial”? Um Natal não de pompas e circunstâncias, não de longas capas magnas pontificais encimadas por preciosos arminhos, mas um Natal como foi o primeiro: um Natal para os pobres pastores indormidos na caladada noite, mas surpreendidos pela solidariedade e pela comunhão do amor fraterno? Não deixa de ser comovente quando, ao passar por mendigos, excluídos ou, até, drogados dormindo nas calçadas, ver alguém, assim em silêncio, depositar ao lado deles alguns pãezinhos ou um pacote de biscoitos ou algumas frutas. Este, sim, é um Natal não marcado somente por belas teorias teológicas nem por rígidas disciplinas canônicas, mas pelo espírito primaveril do Menino que denota, também, uma nova primavera eclesial: a que dá lugar à Igreja da misericórdia, do perdão, da cultura do encontro, do abraço carinhoso de irmãos e irmãs que se amam envolvidos pelo amor de Jesus! Uma Igreja não mais construtora de muros de separação e de excomunhão e, sim, uma Igreja lançadora de pontes de diálogo e comunhão. Ou, se quiserem, não seria uma nova primavera eclesial presenciar o testemunho inaudito de um Pastor, Bispo de Roma e Sumo Pontífice da Igreja que, quase às vésperas do Natal, no Dia Universal do Pobre, oferece na Sala Magna do Vaticano um almoço para 1.500 pobres, com eles partilhando a mesma mesa?

4. A gravidez de um novo Natal um novo renascer da Igreja. Num momento da mais íntima e silenciosa oração, um anjo enviado por Deus, traz a Maria uma surpreendente notícia: “Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto a Deus. Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus”. E, a uma virgem assustada, tentando uma tímida resposta, o anjo acrescenta: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus”. Pois bem, nesse novo renascer da Igreja, Maria, chamada depois do Concílio Vaticano II pelo Papa Paulo VI de “Mãe da Igreja” encontra-se grávida de um novo Povo de Deus. Assim como no primeiro Natal ela deu à luz o Filho de Deus e, não tendo sido aceita em nenhuma hospedaria, reclina-o na manjedoura da exclusão, da pobreza, no meio dos pobres e esquecidos na noite, hoje Maria está grávida de uma nova Igreja cujo parteiro – se assim posso me expressar – é o nosso amado papa Francisco. Eis que Maria, neste novo Natal, dará à luz todo um Povo peregrino para a pátria celeste.

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Ao tomar consciência de uma nova realidade histórica social, cultural, religiosa, qual deve ser o novo modo de pensar e agir do cristão ao celebrar um novo Natal de Jesus? Que dificuldades podem-se encontrar para abrir-se ao novo? Haveria disposição interior para enfrentar os novos desafios com uma renovada esperança? No atual horizonte da Igreja católica, no contexto de um novo Natal, como o grupo vê ou, melhor, como analisa o testemunho de uma nova “primavera eclesial” dado pelo nosso corajoso papa Francisco?

Com esse espírito de quase ansiosa expectativa de um novo parto, rezemos uma pequena parte da Oração final a Maria, a Estrela da Nova Evangelização, que se encontra na Evangelii Gaudium (EG):


Vós, cheia da presença de Cristo,

levastes a alegria a João, o Batista,

fazendo-o exultar no seio de sua mãe.

Vós, estremecendo de alegria,

cantastes as maravilhas do Senhor.

Vós, que permanecestes firme diante da Cruz

com uma fé inabalável,

e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,

reunistes os discípulos à espera do Espírito

para que nascesse a Igreja evangelizadora.

Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados

para levar a todos o Evangelho da vida

que vence a morte.

Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos

para que chegue a todos

o dom da beleza que não se apaga.


 

Com meu fraterno abraço e meu carinho, concluo esta nossa última carta do ano, desejando a todos um Santo Natal e fecundo 2018!

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN

Carta MCC Brasil – Novembro 2017 – 219ª.

Aos irmãos e irmãs, discípulos-missionários de uma “Igreja em saída”, minhas fraternas saudações.

 No dia 2 de novembro, dia em que a Igreja faz memória dos Fieis Defuntos, um cristão católico não pode deixar de refletir sobre a virtude da esperança e, principalmente, sobre como ela pode, efetivamente, fortalecer sua caminhada rumo ao Reino definitivo. Essa é, pois, a proposta da presente Carta mensal – proposta aliás, sempre renovada a cada ano no transcurso dessa comemoração.

E por quê? Sem dúvida, porque somos motivados pela esperança a acreditar que, a despeito de circunstâncias históricas quase que inteiramente desfavoráveis, a realidade social, econômica, politica e, até religosa, possa, amanhã ou depois, mostrar-se mais justa, mais tranquila, mais equilibrada, enfim, mais humana.

Mas, e na ótica da fé, como viver, como alimentar essa tal virtude chamada esperança? E, mais: como irradiar a luz da esperança ao nosso redor? Mais ainda: a memória dos nossos mortos é apenas uma lembrança de ausência e umas lágrimas de saudade de tantos que já se foram – lágrimas essas que, no mais das vezes, acabam secando logo após a missa de sétimo por eles celebrada, ou com o depósito de uma flor que logo murchará sobre a fria laje de seus túmulos? Ou é a possibilidade de abrir nossos tão limitados horizontes transitórios com a esperança de um abraço de carinho e de amor eterno, com a esperança de uma inexplicável ressurreição?

Aqui me detenho, pois estava neste ponto quando, providencialmente, tomo conhecimento da catequese do Papa Francisco, por ele proclamada em 18 de outubro último, na Praça de São Pedro: uma catequese precisamente sobre esperança e ressurreição.

Então, pergunto, o que há de mais oportuno do que escutar o nosso admiravel Pastor? Assim sendo, tomo a liberdade de aqui transcrever alguns pontos marcantes por ele enfatizados.

1. O medo da morte no mundo atual. “Hoje gostaria de colocar em confronto a esperança cristã com a realidade da morte, uma realidade que a nossa civilização moderna tende sempre mais a pôr de lado. Assim, quando a morte chega, para quem está próximo a nós ou para nós mesmos, nos encontramos despreparados, privados também de um “alfabeto” adaptado e apto para esboçar palavras de sentido em torno de seu mistério, que ainda permanece. Já os primeiros sinais de civilização humana transitaram através desse enigma. Poderíamos dizer que o homem nasceu com o culto dos mortos.”

2. Jesus ilumina o mistério da morte. “Jesus iluminou o mistério da nossa morte. Com o seu comportamento, autoriza-nos a nos sentir tristes quando uma pessoa querida se vai. Ele ficou “profundamente” triste diante do túmulo do amigo Lázaro e “chorou” (Jo 11, 35). Nessa sua atitude, sentimos Jesus muito próximo, nosso irmão. Ele chorou pelo seu amigo Lázaro”. Mais adiante: “Jesus nos coloca sobre esse “cume” da fé. A Marta, que chora pela morte do irmão Lázaro, se coloca a luz de um dogma: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (Jo 11, 25-26). É aquilo que Jesus repete a cada um de nós, toda vez que a morte vem arrancar o tecido da vida e dos afetos. Toda a nossa existência se joga aqui, entre a vertente da fé e o precipício do medo. Diz Jesus: “Eu não sou a morte, eu sou a ressurreição e a vida, acreditas nisso? Acreditas nisso?”. Nós, que hoje estamos aqui na Praça, acreditamos nisso?

            a) Jesus chora diante do túmulo de Lázaro. “E então Jesus reza ao Pai, fonte da vida, e ordena a Lázaro que saia do sepulcro. E assim acontece. A esperança cristã se apoia nessa atitude que Jesus assume contra a morte humana: se ela está presente na criação, ela é, porém, uma marca que deturpa o desígnio de amor de Deus, e o Salvador quer curar”.

            b) Jesus toma pela mão a filha de Jairo. “Outro momento do Evangelho fala de um pai que tem a filha muito doente e se dirige com fé a Jesus para que a salve (cf. Mc 5, 21-24. 35-43). E não há figura mais comovente que aquela de um pai ou de uma mãe com um filho doente. E logo Jesus caminha com aquele homem, que se chamava Jairo. A certo ponto, chega alguém da casa de Jairo e lhe diz que a criança morreu e não há mais necessidade de chamar o Mestre. Mas Jesus diz a Jairo: “Não temas, somente tenha fé” (Mc 5, 36). Jesus sabe que aquele homem é tentado a reagir com raiva e desespero, porque morrera a criança e lhe recomenda preservar a pequena chama que fora acesa em seu coração: a fé. “Não temas, somente tenha fé”. “Não tenha medo, continue somente a ter acesa aquela chama!” E, depois, chegado à casa, despertará a menina da morte e a restituirá viva aos seus queridos”.

 

3. Convite para pensar no momento de nossa morte. “Assim a morte coloca nua a nossa vida. Faz-nos descobrir que os nossos atos de orgulho, de ira e de ódio eram vaidade: pura vaidade. Nós nos damos conta com tristeza de não ter amado o suficiente e de não ter procurado aquilo que era essencial. E, ao contrário, vemos aquilo que de verdadeiramente bom deixamos de lado: os afetos pelos quais nos sacrificamos e que agora nos seguram pela mão”.

Somos todos pequenos e indefesos diante do mistério da morte. Porém, que graça se naquele momento preservamos no coração a pequena chama da fé! Jesus nos tomará pela mão, como tomou pela mão a filha de Jairo, e repetirá ainda uma vez: “Talità kum”, “Menina, levanta-te!” (Mc 5, 41). Dirá isso a nós, a cada um de nós: “Levanta-te, ressurja”. Eu te convido, agora, a fechar os olhos e a pensar naquele momento: da nossa morte. Cada um de nós pense na própria morte e imagine aquele momento que chegará, quando Jesus nos tomará pela mão e nos dirá: “Venha, venha comigo, levanta-te”. Ali terminará a esperança e será a realidade, a realidade da vida”.

4. Reafirmação da nossa fé na Palavra de Jesus e no nosso encontro com Ele. “Pensem bem: o próprio Jesus virá a cada um de nós e nos tomará pela mão, com a sua ternura, a sua mansidão, o seu amor. E cada um repita no seu coração a palavra de Jesus: “Levante-se, venha, Levante-se, venha. Levante-se, ressurja!”.

5. “Esta é a nossa ESPERANÇA!” “Esta é nossa esperança diante da morte. Para quem crê, é uma porta que se abre completamente; para quem duvida é um pequeno raio de luz que se filtra pelo vão de uma porta que não se fechou de todo. Para todos nós, porém, será uma graça quando nos iluminar essa luz do encontro com Jesus”.

 

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Depois de transcrever as providenciais palavras do papa Francisco, termino com a sugestão de que, durante todo o mês de novembro, se reflita sobre a Palavra de Deus expressa sobretudo em Mt 22,23; Jo 11,25; Jo 5,21; Jo 6,40; 1Cor 15,42 ss; 1Pd 3,15. Por fim, e não poderia ser diferente: “Vi então um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, vestida como noiva enfeitada para o seu esposo. Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus-com-os-homens. E vai morar junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque coisas anteriores passaram”. Aquele que está sentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.”Depois, ele me disse: “Escreve, pois estas palavras são dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21, 1-4).

Deixando a todos meu carinho e meu abraço, termino pedindo a Nossa Senhora da Esperança que rogue por nós!

Pe. José Gilberto BERALDO
Equipe Sacerdotal do GEN MCC Brasil
E-mail: jberaldo79@gmail.com

Carta MCC Brasil – Outubro 2017 – 218ª.

Aos amigos leitores e leitoras, irmãos e irmãs, discípulos-missionários numa “Igreja em saída”, minha saudação fraterna:

Introdução. Outubro é o tradicional “Mês das Missões”, celebrando-se no domingo, 22/10, o “Dia Mundial das Missões”. Quando, no meu tempo de criança, frequentava a preparação para a primeira eucaristia, as catequistas nos enviavam pelas ruas oferecendo rifas e sorteios para angariar fundos “em prol das missões”. Por oportuno, podemos nos perguntar: que ideias podem passar pela cabeça de um cristão católico ao ouvir a palavra “missões”? Talvez perdure, ainda, nos mais velhos, aquele conceito mais ou menos tradicional de que “missões” é uma atividade para “catequizar os índios”… ou então uma campanha para angariar dinheiro para os missionários na África, na China, nas selvas amazônicas, ou para as chamadas “Obras Missionárias”, como nos meus já velhos tempos.

Entretanto, não mais se entende com tantas restrições, o que significa para nós, hoje, uma “Igreja em estado de missão”. Assim é que no coração dos seguidores de Jesus brotam perguntas que não querem calar: como anunciar a Boa Notícia do Evangelho num mundo tão distante do projeto salvífico do Pai misericordioso? Como acender a lâmpada da Palavra num mundo imerso nas trevas da ignorância da mensagem libertadora de Jesus? Como agir para “colocar a lâmpada” da misericórdia infinita de Deus, num mundo de indiferença, ódio, vingança e individualismo, que navega nas águas de uma sociedade líquida e na era da pós-verdade?

Dois documentos fundamentais para uma Igreja em missão sejam o pano de fundo para esta nossa breve reflexão: a Exortações Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (EN) do papa Paulo VI e a “Evangelii Gaudium (EG) do papa Francisco.

1. A cultura de hoje e o anúncio missionário da Boa Notícia. O que significa para o seguidor de Jesus acender a lâmpada da Boa Notícia em nossa cultura que é o mar encapelado e tenebroso no qual navegamos, isto é, o conjunto de situações sociais, políticas e religiosas que nos cerca? Pois é de uma cultura que nasce uma mentalidade. De uma mentalidade, brota um comportamento. De um comportamento emerge o testemunho. O testemunho é a projeção da luz que ilumina o evangelizador. E, da mesma forma como acontece com a luz e os insetos, o evangelho testemunhado atrai a cultura para Jesus.

Lembra o Cardeal Filoni, Prefeito da Congregação para Evangelização dos Povos, que “ainda hoje há outros impedimentos não menos graves ao anúncio do Evangelho: a mentalidade secular, o hedonismo, a indiferença, a idolatria do bem-estar e do dinheiro”. E prossegue, seguindo o ensinamento do Papa Bento XVI e do Papa Francisco, que a proclamação do Evangelho “não é doutrinação, nem imposição ou um forçar as mentes e os corações. Adere-se ao Evangelho não por ‘proselitismo ideológico’, mas por ‘atração’, com a liberdade interior daqueles que descobrem serem filhos e filhas de Deus”.

2. A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI e a missão do evangelizador. Ao priorizar o testemunho de vida no processo evangelizador, o Papa Paulo VI assim nos ensina: “E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força desse testemunho sem palavras, esses cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco? Pois bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova. Nisso há já um gesto inicial de evangelização. Daí as perguntas que talvez sejam as primeiras que se põem muitos não-cristãos, quer se trate de pessoas às quais Cristo nunca tinha sido anunciado, ou de batizados não praticantes, ou de pessoas que vivem em cristandades, mas segundo princípios que não são nada cristãos. Quer se trate, enfim, de pessoas em atitudes de procurar, não sem sofrimento, alguma coisa ou Alguém que elas adivinham, sem conseguir dar-lhe o verdadeiro nome. E outras perguntas surgirão, depois, mais profundas e mais de molde a ditar um compromisso, provocadas pelo testemunho aludido, que comporta presença, participação e solidariedade e que é um elemento essencial, geralmente o primeiro de todos, na evangelização. Todos os cristãos são chamados a dar esse testemunho e podem ser, sob este aspecto, verdadeiros evangelizadores”.  (EN 21).

3. “A dimensão social da evangelização” na “Evangelii Gaudium” do papa Francisco. Entre outros importantes parágrafos, quero assinalar o de n° 181: “O Reino, que se antecipa e cresce entre nós, abrange tudo, como nos recorda aquele princípio de discernimento que Paulo VI propunha a propósito do verdadeiro desenvolvimento: “O homem todo e todos os homens”. Sabemos que “a evangelização não seria completa, se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, dos homens”. É o critério da universalidade, próprio da dinâmica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os homens se salvem; e o seu plano de salvação consiste em “submeter tudo a Cristo, reunindo n’Ele o que há no céu e na terra” (Ef 1, 10). O mandato é: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15), porque toda “a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8, 19). Toda a criação significa também todos os aspectos da vida humana, de tal modo que “a missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destinação universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho. A verdadeira esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre história”.

Conclusão. Permitam-me, caros leitores e leitoras, insistir naquilo que julgo essencial na missão de anunciar a Boa Notícia do Evangelho nos nossos dias e assim sintetizar: introduzir critérios e valores do evangelho numa cultura que não é mais cristã. Não para criar uma nova “cristandade” e, sim, para preparar o terreno para a plena humanização de todo ser humano, criatura do Pai misericordioso, redimida pelo sangue de seu Filho bem-amado, Jesus. E que, plenamente humanizado, possa viver “divinizado”.

Portanto,

a) numa nova cultura, não permitir que se percam os valores e critérios do Evangelho e, nos novos caminhos abertos por conceitos e práticas de uma “sociedade líquida”, não renunciar ao caminho do seguimento de Jesus… “EU SOU O CAMINHO…”;

b) num tempo de “pós-verdade”, não deixar-se envolver pela mentira ou pelas aparências: “EU SOU A VERDADE…”;

c) nas dimensões de uma “cultura de morte” onde imperam a violência quase que institucionalizada, a dolorosa vingança e a fria “globalização da indiferença”, diante do sofrimento de tantos irmãos e irmãs, lutar pela recuperação da dignidade de todo ser humano, especialmente daqueles que vivem ao nosso lado: “EU SOU A VIDA…”.

Mostremos ao mundo Jesus: “EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. NINGUÉM VAI AO PAI SENÃO POR MIM” (Jo 14, 6).

Com todo o afeto do meu coração vai meu carinhoso abraço a você, discípulo (a)-missionário (a),

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN

Carta MCC Brasil – Setembro 2017 – 217ª.

Caríssimos irmãos e irmãs:

Pela Igreja no Brasil e, parece, também em alguns outros países, nós, católicos, somos convidados a celebrar em setembro o MÊS DA BÍBLIA.

A origem desse salutar e edificante costume estaria na coincidência da celebração da festa de São Jerônimo – 30/9 – um dos maiores biblistas da Igreja. Seu nome e seu ministério estão visceralmente ligados à tradução da Bíblia do hebraico e grego para o latim, idioma universal do seu tempo.

Dedicar um mês à leitura, reflexão, aprofundamento e oração à Palavra de Deus, não significa, evidentemente, que só durante este mês devamos fazê-lo… Trata-se de um estímulo-lembrança para todos os outros dias do ano, pois da Palavra um seguidor de Jesus deve alimentar-se como se nutre do alimento corporal. Por isso, ainda que meus amáveis leitores (as) possam dispor de inúmeras outras considerações bíblicas, até mais enriquecedoras do que estas, permito-me oferecer-lhes algumas limitadas reflexões sobre a Palavra. Nosso foco será a Palavra-Luz-Jesus.

 

1. “Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho”. Essa expressão buscada no Salmo mais longo da Bíblia, no Antigo Testamento, será relembrada ou proclamada no prólogo do evangelho de São João, como veremos em outro ponto. Nossas humanas limitações, nossas naturais carências, nossas quase que habituais desatenções podem provocar e, de fato, provocam, tropeços e quedas no chão da vida. E isso ocorre quando as trevas do distanciamento da Palavra se adensam pelas nossas infidelidades e omissões. Sentimos, então, a urgente necessidade de iluminar o nosso caminho com a luz da Palavra contida nas Escrituras. Nossos pés, então feridos e, até muitas vezes, sangrando, encontrarão apoio e segurança para prosseguirmos a caminhada rumo à mais brilhante Luz, rumo ao encontro com Jesus-Palavra-Vida.

2. “No princípio era a Palavra e a Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus”. Trevas não são somente sinais de morte, mas hospedam em suas profundezas a própria morte. Trevas são os suicídios cada vez mais frequentes, os homicídios, o desrespeito à dignidade da pessoa, a violência sempre mais generalizada e ainda, como costuma dizer o papa Francisco, a indiferença globalizada. Para além dessas mortes físicas ou da deterioração corporal as trevas são ainda, e sobretudo, a morte do espírito; a morte das energias espirituais nascidas pela graça divina. Onde encontrar a luz em meio às trevas? Em quais circunstâncias estarão os nossos passos iluminados? Onde encontraremos a vida? À luz da fé, é na Palavra que encontramos a vida e a luz. Em cada versículo, em cada perícope da Bíblia haveremos de ser ressuscitados e iluminados para seguirmos o caminho de Jesus-Palavra no qual encontramos a Vida e a Luz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”! (Jo 14,6). E mais: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12)!

3. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A Palavra se fez carne e veio morar entre nós”. O amor é a mais bela expressão da vida e por isso comunica espontaneamente a vida. São Tomás de Aquino afirmou isso através de uma fórmula hoje consagrada: “amor est difusivum sui”, isto é, “o amor expande-se a si mesmo, difunde-se à sua volta”. Se essa expansão e difusão se realizam nos limites do humano, quão grande serão, então, essa expansão e essa difusão nos limites do Amor eterno, da Misericórdia infinita do Pai Celeste? Pois é a sua Palavra, isto é, o mais profundo e misterioso de Si mesmo que Ele nos envia, enviando-nos o seu próprio Filho, Jesus Cristo. Jesus que não só é semelhante a nós, mas que, “morando entre nós”, partilha conosco a sua própria natureza divina. Aliás, perguntemo-nos: o que há de mais autêntico, de mais íntimo, de mais expressivo ao ser humano do que fazer nascer lá nas profundezas do coração, uma palavra? Seja ela qual for – pode ser a expressão do amor ou do ódio, da verdade ou da mentira, do carinho ou da rejeição, do convite caloroso ou da fria indiferença, da luz irradiante ou da obscuridade das trevas. Pois – repito – sendo Deus amor (cf. Jo 4,16), Ele “se expande” entre nós. E porque “nele estava a vida”, fez de sua vida a “luz dos homens”!

 

4. A experiência da Palavra. Comentando alguns versículos do Evangelho de João, assim se expressa o Pe. Antonio José de Almeida[1] ao referir-se ao encontro da pessoa com a Palavra: O Evangelho de João se apresenta como o drama – mais propriamente, o processo – do encontro (e desencontro) entre o ser humano e a Palavra. A comunicação, aqui – como, aliás, na vida, quando vivida em profundidade – entremeia dito e não-dito, mal-entendidos e cumplicidades, equívocos grosseiros e finas ironias, resistências e rendições. O leitor não pode não se ver envolvido nesse drama, para fazer – em primeira pessoa – a experiência da Palavra que o chama e conduz, passo a passo, a entrar na ‘casa’ de Jesus-Palavra, a ver a ‘casa’ de Jesus-Palavra e a tornar-se ‘de casa’ com Jesus-Palavra”.

A palavra chave aqui é “experiência”. Pode-se tecer inúmeras considerações sobre a Palavra. Todas elas de profunda riqueza. Entretanto, nenhuma será tão completa, tão oportuna, tão fascinante quanto experimentar a Palavra – Jesus. Mergulhar no mistério da Palavra. Nos áridos momentos da insipidez do dia a dia, sentir o seu sabor. Nas horas do amargor das provações, vibrar com a sua doçura. Nos momentos de exaustão pelo cansaço, descansar no seu Coração. Nas horas da rotina que estressa e escraviza, repousar no seus braços misericordiosos. Quem sabe, com os olhos marejados pelo sofrimento causado pelas ausências, deixar-se umedecer pelas lágrimas d’Ele. Ou na intensidade das raivas acumuladas que endurecem o coração, mergulhar no seu perdão. Ou na dor gerada pelas imerecidas ingratidões ou traições, sentir o que Ele sentia…

 

Sintetizando: “A manifestação de Deus é destinada à nossa participação na vida divina, à realização em nós do mistério da sua encarnação. Tal mistério é o cumprimento da vocação do homem.” Essas sábias palavras, pronunciadas por Bento XVI, em sua primeira catequese de 2011, resumem o que deve ser a Bíblia, as Escrituras, a Palavra de Deus em nossa vida. É porque a palavra é ‘lâmpada’; é porque ‘no princípio era a palavra’; é porque ‘a palavra se fez carne e veio morar entre nós’; é porque a experiência da palavra nos permite mergulhar em seu mistério – é por causa de tudo isso que podemos conhecer o Mestre e tornar-nos seus discípulos. Seria demais afirmar que, principalmente nos tempos em que vivemos, dificilmente a nossa vida teria algum sentido se ao menos não nos esforçássemos para buscar cumprir essa vocação?

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Ao ver-se em cada uma das situações acima, ou em outras recorrentes no sua dia a dia, busque nos Evangelhos a passagem correspondente com os olhos fixos naquele que iniciou e realizou a fé, em Jesus. E, mais uma vez, recordando este Mês da Bíblia, aprendamos a praticar a “lectio divina”, isto é, a leitura orante da Palavra de Deus. Melhor, aprendamos a fazer a experiência da Palavra, a experiência de Jesus!

Conclusão. É precisamente a ‘leitura orante da Palavra’ e a ‘experiência da Palavra, que é a experiência de Jesus’ que nos levam a viver os ensinamentos contidos na Bíblia. Com seu estilo inconfundível, o papa Francisco (na audiência geral de 23/08), nos anima a superar nossas dificuldades em viver esses ensinamentos. Ele nos diz: “Mas nós, cristãos, acreditamos que no horizonte do homem há um sol que ilumina eternamente. […] Somos mais pessoas de primavera do que de outono”. E nos sugere perguntar-nos a nós mesmos: “A minha alma está na primavera ou no outono? Sou uma pessoa de primavera, que espera o fruto, a flor, o sol, ou uma pessoa de outono, que está sempre cabisbaixa, amargurada?” E conclui: “Não nos meçamos em nostalgias, arrependimentos e queixas: sabemos que Deus nos quer herdeiros de uma promessa e incansáveis cultivadores de sonhos.”

Com amizade e carinho, meu abraço fraterno,

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe Sacerdotal GEN
MCC Brasil

 


[1] “Subsidio litúrgico-catequético mensal”, na festa de São Bartolomeu 2017

CARTA MCC BRASIL – AGO 2017 – 216ª.

Caríssimos irmãos e irmãs, leitores e leitoras destas nossas despretensiosas cartas mensais: “para vós, graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1Cor 1,3)!

Introdução. Além de ser designado o Mês das Vocações e de honrar Maria em sua gloriosa Assunção aos céus, agosto é o mês em que celebramos, com toda a Igreja, a solenidade da Transfiguração de Jesus diante de seus três discípulos prediletos. Além de renovar a esperança dos seguidores de Jesus na própria transfiguração final, é um dos acontecimentos mais significativos para a confirmação de nossa fé. Como proposta para nossa reflexão mensal, parece-me importante salientar, entre outros também importantes, os três pontos que seguem.

1. Escutar Jesus. Uma coisa é “ouvir dizer” algo sobre Jesus, sobre sua vida ou sobre sua missão. Outra coisa é escutá-Lo. Ouvir é mais ou menos superficial. Normalmente, quase tudo o que ouvimos entra por um ouvido e sai pelo outro. Escutar é deixar que a Palavra penetre profundamente no coração modelando a vida. Ouvir é deixar-se encharcar por todos os ruídos que nos cercam, até no suposto silêncio de nossa intimidade, de nosso lar, de nossa família. Pois ali também penetram, com força, os modernos meios de comunicação: rádio, televisão, imprensa e, até, o telefone celular. Escutar supõe silenciar tanto as barulhentas vozes externas como, sobretudo as, muitas vezes, estranhas vozes que se fazem ouvir no interior do coração ou da própria consciência. Escutar Jesus, portanto, é deixar que, naqueles momentos de profundo silêncio interior e, até, nos inevitáveis momentos mais ruidosos do dia a dia, Jesus nos fale. E onde nasce Sua autoridade para falar? Do Pai celestial que, declarando-o filho “de pleno agrado” – portanto, Deus como o próprio Pai – ordena que o “escutemos”. E, escutar Jesus, reconhecendo-o como Filho de Deus, é reafirmar n’Ele a nossa fé.  Aqui é oportuno lembrar que vivenciar uma fé não é o mesmo que praticar uma religião. Enquanto esta se manifesta por atos externos de culto, por tantos gestos simbólicos de oferenda ou doação ou, até pela prática de mil devoções, de infindáveis novenas a este ou àquele santo, de promessas para obter graças em todos os momentos da vida mormente quando as situações são negativas, de velas acesas ou das, frequentemente, ridículas “correntes de oração”, aquela nos conduz à razão de ser do cristianismo, isso é, a aceitar em nossa vida a pessoa de Jesus, escutá-Lo na prática e vivência do nosso dia a dia e, portanto, segui-Lo pelo caminho aberto por Ele.

2. Não viver “assustados” para poder viver “sem medo”. Daí em diante, nada mais haverá de nos assustar na caminhada; tudo contribuirá para os que O amam: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo seus desígnios” (Rm 8,28) e nada haverá de nos afastar d’Ele: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada?… Mas, em tudo isso, somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou” (Rm 8, 35.37). Então, meus queridos leitores e eleitoras, por que deixar-se contaminar pelos muitos “medos” presentes num mundo e numa cultura hoje tão distantes de Jesus? Por que – pergunto – por que não escutar de novo, a Jesus que insiste: “Levantai-vos, não tenhais medo”?

Sugestão para uma reflexão pessoal e/ou do grupo. Devido à necessária limitação de espaço, sugiro que, individualmente ou em grupo leia-se todo o Capítulo II da Evangelii Gaudium[1], muito oportuno para o assunto que estamos propondo e que as Escolas Vivenciais utilizem o capítulo como programa de reflexão para este mês.

3. Seguir Jesus no Tabor da Transfiguração é deixar-se transfigurar por Ele. Caminhando atrás de Jesus nas planuras ou nos “calvários” da vida, nas alegrias ou nos sofrimentos físicos ou morais, o discípulo (a) também com Ele deixa-se “transfigurar” até chegar, como afirma São Paulo, à estatura de Cristo: “Assim ele capacitou os santos para a obra do ministério, para edificação do Corpo de Cristo, até chegarmos, todos juntos, à unidade da fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude” (Ef 4, 12-13).  Trata-se de uma peregrinação que dura toda a vida; de uma conversão das trevas do pecado para a luz da graça; dos atalhos que o mundo nos oferece para o caminho de Jesus e com Jesus; de uma constante superação da própria vontade para alcançar os valores e critérios do Reino de Deus; da morte para si mesmo para o “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Com essa certeza, São Paulo radicaliza quando afirma – e com ele poderemos também afirmar – “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20.)

4. Transfigurado com Jesus, o (a) discípulo (a), retornando do Tabor da contemplação, torna-se, uma luz para o mundo. É muito importante não esquecer que o discípulo transfigurado não tem luz própria mas dele emana a luz de Jesus. E o mundo de hoje necessita urgentemente dessa luz intensamente irradiada pelo testemunho de vida dos seguidores da Luz: “Vós sois a luz do mundo… Assim também brilhe a vossa luz diante das pesssoas, para que vejam as vossas  boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 14.16). E, ainda, São João nos lembra: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Ser luz do mundo é, nada mais que ser e dar testemunho da Luz verdadeira num mundo e nos ambientes onde imperam as trevas da malícia, da mentira, da calúnia, do ódio ou da indiferença.

Sugestão para uma reflexão pessoal e/ou do grupo. Refletir atentamente no que é ser testemunho de Jesus, testemunho esse tão bem esclarecido pelo Papa Paulo VI no n° 21 da EN[2]: “E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou grupo de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força desse testemunho sem palavras, esses cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é — ou quem é — que os inspira? Por que é que eles estão conosco?”

Mês das Vocações. Nada mais oportuno do que, com o Papa Francisco, durante todo este mês, rezarmos  pelas Vocações: “Senhor Jesus, assim como chamaste, um dia, os primeiros discípulos para fazer deles pescadores de homens, não deixes de fazer ressoar também hoje o teu doce convite: “Vem e segue-me”! Dá aos jovens e às jovens a graça de responder prontamente à tua voz! Sustenta no seu trabalho os nossos bispos, os presbíteros, as pessoas consagradas. Dá perseverança aos nossos seminaristas e a todos os que estão realizando um ideal de vida totalmente consagrado ao teu serviço. Desperta nas nossas comunidades o compromisso missionário. Manda, Senhor, operários para a tua messe e não permitas que a humanidade se perca por falta de pastores, de missionários, de pessoas entregues à causa do Evangelho. Maria, Mãe da Igreja, modelo de toda vocação, ajuda-nos a responder “sim” ao Senhor que nos chama a colaborar com o desígnio divino de salvação. Amém”.

Deixando a todos meu carinho e meu abraço, termino invocando a Maria Assunta aos céus e Estrela da Manhã: Rogai por nós!

 


[1] Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (Sobre “A Evangelização no Mundo contemporâneo”, Paulo VI 08/12/75

 

Carta MCC Brasil – Julho 2017 – 215ª.

Irmãos e irmãs, leitores e leitoras muito queridos: desejo-lhes saúde, paz e alegria na peregrinação do seguimento de Jesus!

Introdução. Ao lançar os olhos sobre as celebrações da liturgia no mês de julho, deparamo-nos com uma síntese inestimável de testemunhos e estímulos de tantos santos e santas que podem nos auxiliar, e de fato o fazem, em nossa peregrinação diária pelo caminho de Jesus. O segredo ou, se assim o preferirem, o caminho do seguimento de Jesus, hoje, está em nos darmos conta de como atualizar aqueles testemunhos e estímulos ao invés de considerá-los somente como algo pertencente ao passado, sem muito a ver com o presente de nossa caminhada cristã. Aliás, é o que pode acontecer quando, ao lermos o início das narrativas evangélicas, ouvimos um “naquele tempo”. Se não conseguirmos trazer “aquele tempo” para a nossa atual história, a narrativa pouco ou nada poderá significar para a vida de cada um de nós que queremos ser discípulos-missionários e autênticos seguidores de Jesus. Proponho, pois, que juntos revitalizemos aquelas celebrações dos nossos irmãos e irmãs – testemunhos e testemunhas do passado – sintetizando-as em dois abrangentes temas e aplicando-as concretamente ao presente da Igreja, portanto, de cada um e de cada uma de nós. Tudo como se, agora, aos nossos ouvidos, soasse insistente o envio missionário de Jesus: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! No vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo.’ Curai doentes, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expulsai demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” (Mt 10, 6-8).

Primeiro tema: A Fé e a Missão – São Pedro e São Paulo (02/07)[1], São Tomé (03/07) e São Tiago Maior (25/07), Apóstolos. O fundamento da vida desses apóstolos e do seu seguimento de Jesus reside na fé de todos eles no Senhor Jesus. Quantas e quantas vezes já ouvimos: “Tu és o Cristo” (Mc 8, 29), ou “Aumenta a nossa fé” (Lc 17, 5), ou “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28). E São Paulo reafirma a sua fé quando exclama: “É por isso que estou suportando também estes sofrimentos, mas não me envergonho. Pois sei em quem acreditei, e estou certo de que ele é poderoso para guardar até aquele dia o bem a mim confiado” (2Tm 1, 12). É nestas e em outras manifestações de fé dos apóstolos que nasce a sua missão de anunciar o Reino.

Atualizando… Também é a nossa missão de discípulos-missionários hoje. Para nos ajudar a aprofundar essa breve reflexão sobre fé e missão em nossos dias, ninguém melhor que D. Paulo Mendes Peixoto, arcebispo de Uberaba (MG), a quem agradeço, que a expressa num artigo muito oportuno – como, aliás, são todos os seus artigos – que acabo de receber, intitulado “Convicção de fé”, e do qual transcrevo alguns parágrafos, cujas palavras tomo a liberdade de fazer minhas: “A fé, no Reino divino, é um dom de Deus. É recebida pelo batismo, como uma semente. Mas tem que ser regada, assumida com maturidade e equilíbrio. Muitas de suas manifestações revelam desequilíbrios. Até o fato de a pessoa querer ser diferente das outras, na comunidade cristã, onde ela (a fé) deve ser colocada em prática, “cheira” a atitude estranha, que não passa de falta de equilíbrio.

Identifica-se claramente, nos últimos tempos, uma forte contradição relacionada com a fé: de um lado, o indiferentismo em relação à vida cristã; de outro, as manifestações de religiosidade sensacionalista, com pouco ou nada de comprometimento com as realidades concretas da vida da sociedade. Não adianta dizer ter fé se não tem obras, se não há esforço para construir uma vida de liberdade.

Quem teve oportunidade de uma boa formação sobre a fé, tem mais facilidade para enfrentar os caminhos difíceis na vida. Seus atos devem ser autênticos, justos e honestos. Sua base de ação está mais fundamentada na Palavra de Deus. Fica indignado diante da corrupção, da violência e da falta de paz. Mas também acredita no caminho do diálogo, do respeito e da misericórdia”.

E conclui D. Paulo: “Nos momentos de provação, por causa da missão profética, Deus está com as pessoas que professam a fé n’Ele. O medo não pode roubar da pessoa de fé sua motivação profética, e ela não deve ter medo de quem mata o corpo, pois Deus cuida até dos pássaros do campo, quanto mais da vida de seus filhos na fé (cf. Mt 10,28-29). Jesus disse estar com seu povo até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20). Quem luta por Deus, fazendo o bem pelas pessoas e pela natureza, pode contar com Ele em todos os momentos. Ele não está presente em quem “trambica”, usa de esperteza no exercício do poder e do ter, porque essa não é uma atitude de quem vivencia a fé. A vida será julgada pelo que a pessoa fez ou deixou de fazer. Ela terá que arcar com as consequências de seus maus atos”.

Segundo tema: A oração e o trabalho missionário – São Bento (11/07), São Camilo de Lélis (14/07), São Boaventura (15/07), Bem-aventurado Inácio de Azevedo (17/07), São Joaquim (26/07) e Santo Inácio de Loyola (31/07). Todos esses santos, irmãos que nos precederam heroicamente no caminho de Jesus, deixaram-nos testemunhos de vida e estímulos suficientes para a prática desse binômio fundamental para o exercício de uma autêntica espiritualidade evangélica em busca da santidade. E o fizeram, cada um, fiéis a seu carisma e no contexto do seu tempo. São Bento, por exemplo, o patriarca dos monges do ocidente, entre outras prescrições de sua Santa Regra, deixou aquela norma de ouro: “reza e trabalha”. Lembramos, até, São Joaquim que, com sua esposa Ana, trouxe ao mundo Maria, a mãe de Jesus: trabalhava para sustentar sua família e, como todo bom israelita, frequentava o Templo, lugar de oração.

Atualizando… “contemplação na ação”. Não seria bem uma “atualização”, pois já um dos mais importantes teólogos da Igreja, São Tomás de Aquino (1225-1274) utilizava a expressão como para traduzir o “reza e trabalha”. Entretanto, a “contemplação na ação” é usada hoje com maior frequência e, talvez, mais bem entendida. E, para melhor aprofundarmos na reflexão o significado atual de tão antiga afirmação vem em nosso socorro o Papa Francisco. Assim lemos na EG n.262 sob o título “Motivações para um renovado impulso missionário”: “Evangelizadores com espírito quer dizer evangelizadores que rezam e trabalham. Do ponto de vista da evangelização, não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração. Essas propostas parciais e desagregadoras alcançam só pequenos grupos e não têm força para uma ampla penetração, porque mutilam o Evangelho. É preciso cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao compromisso e à atividade. Sem momentos prolongados de adoração, de encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se. A Igreja não pode dispensar o pulmão da oração, e alegra-me imensamente que se multipliquem, em todas as instituições eclesiais, os grupos de oração, de intercessão, de leitura orante da Palavra, as adorações perpétuas da Eucaristia. Ao mesmo tempo, “é preciso rejeitar a tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação”. Há o risco de que alguns momentos de oração se tornem uma desculpa para evitar que se dedique a vida à missão, porque a privatização do estilo de vida pode levar os cristãos a refugiarem-se em alguma falsa espiritualidade”.

Conclusão. Não poderei concluir esta carta sem citar Maria, a Mãe da Evangelização, como modelo de “contemplação na ação” lembrada na EG (287): “À Mãe do Evangelho vivente, pedimos a sua intercessão a fim de que este convite para uma nova etapa da evangelização seja acolhido por toda a comunidade eclesial. Ela é a mulher de fé, que vive e caminha na fé, e “a sua excepcional peregrinação da fé representa um ponto de referência constante para a Igreja”. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito, por um itinerário de fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade. Hoje fixamos nela o olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salvação e para que os novos discípulos se tornem operosos evangelizadores”.

A todos, meu abraço fraterno, minha amizade e meu carinho no Senhor Jesus,

Pe. José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN

 


[1]     Visando a uma maior participação dos fieis a festa dos Apóstolos foi transferida aqui no Brasil, do dia 29/06 para o domingo seguinte.

Carta MCC Brasil – Junho 2017 – 214ª.

Meus caríssimos leitores e leitoras: saúdo-os desejando que as celebrações de Pentecostes venham a todos iluminar e aquecer, como aos apóstolos, com as luzes do Espírito Santo!

Introdução. Ao apresentar-lhes para reflexão um tema tão profundo quanto este de Pentecostes (Domingo, 04 de junho), confesso estar plenamente consciente de minhas muitas limitações, ainda que a efusão do Espírito Santo tenha sido uma das maiores e mais decisivas motivações de minha já longa vida ministerial. Mais precisamente a origem desta minha hesitação está, sobretudo, no versículo 6 acima: “A cada um é dada a manifestação do Espírito”. Estou convencido de que, mesmo não tendo plena consciência disso e mesmo que não o ponham em prática, todos os que fomos batizados possuímos esta divina manifestação do Espírito. Então, por isso mesmo, posso concluir que não se faz necessário nenhum “batismo no Espírito”. Ou algum batizado nutre alguma dúvida quanto a essa ação do Espírito Santo?

1. Sequência da Missa de Pentecostes. Logo após a segunda leitura é rezada ou cantada uma Sequência, creio que nem sempre anunciada ou cantada com a devida atenção. Aliás, lembro que já transformamos essa Sequência numa canção bem conhecida: “A nós descei divina luz, em nossas almas acendei o amor de Jesus”. Proponho, pois, que esta nossa reflexão gire em torno dela, aplicando-a às realidades de nossas circunstâncias políticas, sociais ou religiosas, mas, com um enfoque particular na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho, EG) do nosso papa Francisco. São dez versinhos resplendentes de Luz, da Luz do Espírito divino.

1.1. “Espírito de Deus, enviai do céu, um raio de luz”. Todos sabemos – porque até sentimos na própria carne – as contradições políticas, econômicas, sociais e religiosas que se manifestam em nossa atual cultura de relativismo, consumismo e exclusão. Aliás, todo o Capitulo II da EG trata esse conjunto de circunstâncias históricas como um desafio e uma crise que enfrentamos no “compromisso comunitário” da evangelização: economia de exclusão, dinheiro que governa ao invés de servir, desigualdade social e outros desafio atuais, inclusive os da “inculturação da fé”. A pergunta que repercute mais fortemente não seria a de que mais gastamos tempo e energia lamentando a situação do que pedindo as luzes do “Espírito de Deus”? Vamos fazê-lo com insistência neste Pentecostes!”

1.2. “Vinde, Pai dos pobres, dai aos corações, vossos sete dons”. O anúncio do Reino de Deus ocupou toda a vida de Jesus na preferência pelos pobres, os enfermos, os excluídos da sociedade. O papa Francisco na EG, dedica nada mais nada menos que cinco densos parágrafos (197- 210) ao “lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus”, além do título mais amplo do Capítulo IV, no. 2: “A inclusão social dos pobres”. Muito a propósito, pedimos nesse verso da sequência, que o “Pai dos pobres” venha em socorro dos mais necessitados, ao mesmo tempo que com eles nos sensibilizamos, tocados os nossos corações pelos sete dons do Espírito Santo.

1.3. “Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde!”. São poucas as pessoas que se dispõem a ouvir. Ouvir queixas e lamentos de corações agitados por múltiplas razões. As ofensas recebidas, o pouco caso de amigos, enfermidades e outras limitações naturais à própria natureza humana, tornam nossos corações agitados e desesperançados. É nesses momentos que mais se necessita da proximidade, do encontro, do consolo. Então, gritemos com toda a força de nossa fé ao “hóspede da alma”, ao Espírito Santo que habita em nós que nos seja de consolo e alívio em nossa aflição acalmando-nos o coração.

1.4. “No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem”. São tempos agitados estes nossos. Quem sabe buscando maior conforto ou tentando garantir um futuro mais seguro para si e para família ou, até, para acumular bens e posses; quem sabe a aflição que toma conta do nosso coração quando, vítimas de qualquer mal físico, psíquico ou espiritual, dificilmente podemos encontrar momentos de verdadeiro descanso. E, se isso não acontece conosco, as preocupações com os que nos cercam também nos atingem. Então é o momento de clamar ao Espírito de Deus que seja Ele mesmo, o nosso repouso, a suave aragem que nos ajude a superar a intranquilidade e a instabilidade do coração.

1.5. “Enchei, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!”. O mesmo “raio de luz” que pode iluminar as trevas que nos cercam num mundo cada vez mais distante de Deus, pedimos para o “íntimo de nós” tão influenciado pelas circunstâncias externas. Cremos firmemente que a “luz bendita” vai gerar no nosso íntimo a alegria tão proclamada em quase todas as páginas da EG, justamente “A Alegria do Evangelho”. Aquela alegria prometida por Jesus ao despedir-se dos primeiros seguidores do seu caminho: “Eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

1.6. “Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele”. É com essa tão sincera afirmação que confessamos nossa incapacidade de sair das trevas do pecado para deixar-nos iluminar pela luz da graça divina. Já deixei assinalado acima quantas e quantas vezes imploramos, cantando: “A nós descei divina luz…” Nesse versinho podemos repeti-la com mais força e mais convicção, plenamente conscientes de nossas limitações. No contexto da EG, lê-se que “Em todos os batizados, desde o primeiro ao último, atua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar. …o Espírito guia-o na verdade e o conduz à salvação” (EG 119).

1.7. “Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente”. Ao se referir a “Alguns desafios do mundo atual”, a EG cita os que podem, e realmente o fazem, produzir uma verdadeira imundície na convivência humana e, até, manchando a dignidade das pessoas: a economia de exclusão, a nova idolatria do dinheiro e outros desafios culturais e religiosos (EG. Capítulo II). Além disso, lembremos, agora de nos interrogar sobre a limpeza da nossa própria consciência e do nosso coração. Sem esquecer-nos de, nesse versinho, pedir pelos doentes físicos ou psíquicos (lembremo-nos dos doentes atingidos por esse mal, fruto tão frequente da agitação e da instabilidade emocional de hoje, chamado “depressão” que pode levar, até, ao suicídio).

1.8. “Dobrai o que é duro, guiai no escuro, o frio aquecei”. Não em uma só, mas em diversas oportunidades, Jesus censura a dureza de coração do seu povo e dos seus próprios discípulos. Em uma delas, diz: “Porque discutis sobre o fato de não terdes pães? Ainda não entendeis, nem compreendeis? Vosso coração continua endurecido? (Mt 8,17). E amiúde o papa nos adverte quanto à “globalização da indiferença”. Globalização que nos atinge também e que, mesmo sem o percebermos, vai endurecendo o nosso coração, ao mesmo tempo em que pode mergulhar-nos na escuridão do distanciamento de Jesus e na frieza espiritual. Suplicando ao Espírito Santo, perguntemo-nos em que momento da nossa caminhada, espantando o frio espiritual que pode invadir-nos, poderemos confidenciar como os discípulos de Emaús: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).

1.9. “Dai à vossa Igreja, que espera e deseja vossos sete dons”. Tempos providenciais para a Igreja este em que vivemos, quando o papa Francisco convoca toda a Igreja a tornar-se uma “Igreja em saída”, isto é, uma Igreja essencialmente missionária. E chega a declarar que este é um “sonho” seu: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo…” (EG 27). Este precioso momento eclesial, portanto, está exigindo de todos nós, cristãos e católicos que, com um maior ardor, supliquemos para toda a Igreja os sete dons do Espírito Santo: Sabedoria, Inteligência, Fortaleza, Temor de Deus, Conselho, Piedade e Ciência. Logo no início da EG assim lemos: “A evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus: ‘Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado’ (Mt 28,19-20). Nesses versículos, aparece o momento em que o Ressuscitado envia os seus a pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, para que a fé n’Ele se estenda por todos os cantos da terra” (EG 19).

1.10. “Dai em prêmio ao forte, uma santa morte, alegria eterna. Amém! Com que súplica mais ardente e fervorosa ao Espírito Santo poderia terminar nossa Sequência? Que prêmio mais oportuno poderíamos receber do Espírito Santo, após esta vida terrena, do que uma santa morte, vestíbulo da eterna alegria que é a ternura do abraço do Pai, abraço prometido por Jesus aos seus fieis seguidores?

Sugestão para uma reflexão pessoal e/ou do seu grupo. Visando a ajudá-los a obter maior proveito da Sequência da Missa de Pentecostes, sugiro que se leia cada um dos versinhos, primeiramente em silêncio e sem pressa e, em seguida, trocando impressões e manifestando alguns propósitos missionários, tendo em vista a “fermentação evangélica” dos seus ambientes e, à luz do Espírito Santo, uma cooperação comprometida com a ação missionária evangelizadora de sua Diocese, Paróquia, Comunidade eclesial ou Movimento.

Terminemos essas nossas tão limitadas reflexões fazendo nossa a oração a Maria, “Mãe do Evangelho vivente” no trecho final da EG: “Virgem e Mãe Maria, Vós que, movida pelo Espírito, acolhestes o Verbo da vida… Vós que permanecestes firme diante da Cruz com uma fé inabalável, e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição, reunistes os discípulos à espera do Espírito para que nascesse a Igreja evangelizadora… rogai por nós. Amém. Aleluia!”

Com meu fraterno abraço, de todos peço a oração por mim e a todos desejo a continuidade de um festivo, alegre e participativo Tempo Pascal. Do servidor e amigo,

Pe. José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN

Carta MCC Brasil – Mai 2017 – 213ª

Queridos leitores e leitoras, perseverantes nas alegrias da Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo: a paz do terno coração do Pai esteja com todos vocês!

Introdução. Se já passaram as festividades da Páscoa, porque tanta citação sobre esse acontecimento tão inexplicável quão misterioso? Para um seguidor do caminho de Jesus a resposta é quase intuitiva: celebrando a Ascensão de Jesus ao céu no domingo, dia 28 deste mês, estamos, ainda, no clima sobrenatural do mistério pascal. A liturgia chama esse tempo de Tempo Pascal que se prolonga até a festa da Santíssima Trindade. Quando digo “clima do mistério pascal”, pretendo reafirmar a fé e a esperança renascidas na Páscoa. Fé e esperança confirmadas pela Ascensão de Jesus aos céus. Sem dúvida, conforme sua promessa aos apóstolos e a nós, haveremos de segui-lo como ressuscitados. Não sem antes recebermos “o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas… até os confins da terra” (cf. At 1,8).

1. Ascensão de Jesus, esperança da imortalidade e compromisso com o anúncio da Boa Nova. De vez em quando aparece em alguns meios de comunicação a notícia de que há cientistas estudando a possibilidade de a limitada vida humana tornar-se eterna… Será? Sem dúvida, aos que analisam tais teorias – não passam de meras teorias – falta a luz da fé em Jesus. Fundamentados na sua Palavra – Ele mesmo é a Palavra – nós, seus seguidores, ancorados na sua promessa, tantas vezes repetida nos Evangelhos, “cremos na ressurreição da carne e na vida eterna” (cf. Credo). A Ascensão de Jesus, além de coroar sua humanidade, vem confirmar para os que com Ele caminham, a certeza da própria ressurreição, a certeza da vida eterna.

1.1. “E, se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8). Aliás, Paulo com essa categórica afirmação aos fiéis de Roma, não faz mais do que ressoar a palavra de Jesus a Nicodemos, preocupado com a afirmação d’Ele que lhe falara em “nascer do alto”. De fato, retruca Nicodemos, “como pode alguém nascer, se já é velho? Ele poderá entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe para nascer?” E Jesus responde: “Em verdade, em verdade te digo: se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus” (cf. Jo 3, 3-5). Talvez a mesma dúvida manifestada por Nicodemos tenha aflorado, vez ou outra, em nosso coração. Pautando-nos pela idade cronológica da vida, nem sempre somos capazes de lançar um olhar mais além. Ou seja, um olhar para a plenitude da ternura de Deus Pai que a todos acolhe com carinho. De fato, Ele não espera o fim de nossa vida terrena para tratar-nos como filhos e filhas muito amados. A submersão nas águas do Batismo e a infusão do Espírito Santo introduzem-nos na “morte com Cristo”, mas, ainda, na Sua vida eterna. Pois, a graça batismal, a graça divina – como já refletimos anteriormente – é para nós, batizados, a “vida eterna já agora iniciada”!

1.2. Recomeçar a partir do mistério. A Páscoa da Ressurreição de Jesus, é mais uma oportunidade que temos de reafirmar a nossa fé n’Ele e na esperança de nossa própria ressurreição. Ressurreição que – como lembramos em nossa carta de abril – já se manifesta na vida divina em nós infundida pelo batismo,  vida eterna já iniciada e, portanto, vida nova. Vida nova significa, sobretudo, um novo início, uma nova mentalidade, novas posturas, novos sentimentos, novas atitudes. Vida nova significa um mergulho no mistério de Deus, através de Jesus, pela ação do Espírito Santo. E, ao dizer “mergulhar no mistério” não estou-me referindo a ter “revelações ou visões” nem de Maria nem de nenhum santo, nem experimentar arrebatamentos celestiais (lembro que a última revelação de Deus na qual devemos crer, com certeza, terminou com o ponto final do livro do Apocalipse)! “Mergulhar no mistério de Deus” é viver dia a dia, recomeçando a cada dia, o amor, a solidariedade, o perdão, a ternura do coração de Cristo, alimentados pela oração e, sobretudo, pela Eucaristia, Corpo e Sangue de Jesus. “Mergulhar no mistério de Deus” é um processo contínuo de conversão, colaborando concretamente para tornar o limitado mundo ao seu redor, mais humano e mais feliz!

2. Uma Igreja em “saída”. Outro momento fundamental da Ascensão de Jesus ao céu é o momento do envio para a missão de anunciar a Boa Notícia do Reino. Missão confiada aos primeiros discípulos, mas estendida a todos os que queremos seguir seu caminho. Missão mais do que nunca, urgente. Missão que, se durante muitos anos restringiu-se ao interior da Igreja ou a alguns poucos rodeando a sacristia, tornou-se atual e, mais que nunca, com o Papa Francisco, missão expressa numa Igreja “em saída” cuja descrição é assim introduzida: “A evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado” (Mt 28, 19-20). Nesses versículos, aparece o momento em que o Ressuscitado envia os seus a pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, para que a fé n’Ele se estenda a todos os cantos da terra” (EG 19).

Sugestão para uma reflexão pessoal e/ou do seu grupo. Sugiro aos que me lêem, bem como aos seus grupos, que voltem a refletir sobre todo o Capítulo I da EG: “A transformação missionária da Igreja”. Nele poderão notar a força – eu diria, quase “revolucionária” – do termo “transformação missionária”.

 

3. Maio: mês de Maria, Mãe da Igreja “em saída”.  Já nos acostumamos com a expressão de que Maria foi a “primeira missionária” por ter-nos trazido o Filho de Deus que anuncia o Reino. Que bela oportunidade temos de, neste seu mês, invocando-a como Mãe de Deus, Mãe de cada seguidor de Jesus, Mãe da Igreja, uma Igreja mais do que nunca missionária, uma Igreja “em saída”, que providencial oportunidade temos, repito, de rezar cada dia deste mês a oração (novamente aqui transcrita) que conclui a providencial Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – “A Alegria do Evangelho” – do Papa Francisco: “Pedimos-lhe (a Maria) que nos ajude, com sua oração materna, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos, e torne possível o nascimento de um mundo novo. É o Ressuscitado que nos diz, com uma força que nos enche de imensa confiança e firmíssima esperança: “Eu renovo todas as coisas” (Ap 21,5). Com Maria, avançamos confiantes para esta promessa, e dizemos-lhe:

“Virgem e Mãe Maria, Vós que, movida pelo Espírito, acolhestes o Verbo da vida na profundidade da vossa fé humilde, totalmente entregue ao Eterno, ajudai-nos a dizer o nosso “sim” perante e urgência, mais imperiosa do que nunca, de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.

 

Vós, cheia da presença de Cristo, levastes a alegria a João Batista, fazendo-o exultar no seio de sua mãe. Vós, estremecendo de alegria, cantastes as maravilhas do Senhor. Vós, que permanecestes firme diante da Cruz, com uma fé inabalável, e recebestes a jubilosa consolação da Ressurreição, reunistes os discípulos à espera do Espírito para que nascesse a Igreja evangelizadora.

Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados para levar a todos o Evangelho da vida que vence a morte. Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos para que chegue a todos o dom da beleza que não se apaga.”[1]

Abraço fraternalmente a todos desejando que, ao “mergulhar no mistério de Deus”, cada leigo e cada leiga – principalmente os que militam nos Movimentos da Igreja – sinta-se motivado a ser agente evangelizador da ‘Igreja em saída’, amparado no carinho maternal de Maria que ‘reuniu os discípulos à espera do Espírito Santo’ para que a Igreja nascesse.

Pe. José Gilberto BERALDO
Equipe Sacerdotal do Grupo Executivo Nacional – GEN –
Movimento de Cursilhos do Brasil


[1] Na EG encontra-se a Oração no seu inteiro teor.